Potus


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Barack Hussein Obama tornou-se, na última terça-feira, presidente americano. Desde então, recebe oficialmente o tratamento formal de “Mr. President”, honraria conferida ao mais alto dignatário da nação mais poderosa do mundo. Sem meias-palavras, a verdade é uma só: ninguém pode hoje mais que Obama. Este professor de direito de 47 anos, nascido e criado no Havaí e que passou boa parte da adolescência na Indonésia, casado com uma advogada e pai de duas filhas, é simplesmente o homem mais poderoso do mundo. Ninguém tem um emprego mais importante do que o seu. Nenhum outro homem ou mulher tem poder de vida ou morte sobre mais gente do que ele. Ninguém controla exércitos maiores do que os que Obama tem sob seu comando. Não há um único chefe de Estado de nenhum outro país que tenha sob sua responsabilidade tanto dinheiro quanto Obama tem. Um homem tão importante merece cuidados especiais. Os carros que usa são limusines únicas, à prova de bomba, gases tóxicos e de quase todo artefato bélico que se possa imaginar. É só neles que, desde terça-feira, “Mr. President” entra. Aonde quer que ele vá no mundo, os carros vão junto. Ele também tem à sua disposição helicópteros e aviões especiais, capazes de mantê-lo no comando do país em qualquer condição - e a partir de qualquer lugar. Tudo isso é cuidado por cerca de 20 mil pessoas de 58 agências governamentais diferentes, que se dedicam à proteção de “Mr. President” e de sua família. Para esta tropa e para o staff que trabalha diretamente na Casa Branca, a sede do governo americano, o homem mais poderoso do mundo não é Obama nem “Mr. President”. No dia-a-dia, ele é simplesmente Potus, sigla para “President Of The United States”. Na última terça-feira, Obama tornou-se o 44º Potus, o primeiro deles negro. No comando da mais sólida democracia do mundo, que escolhe seus líderes pelo voto sem nunca ter sofrido interrupção de continuidade em seus mais de 220 anos de existência, O Potus da vez sempre pode muito. Tem condição de influir no mundo inteiro, definir o que serão as gerações futuras, marcar posições que serão referência por décadas. Nem todos os ocupantes do cargo exerceram tamanha autoridade com a seriedade e coerência devidas. Obama é Potus há menos de uma semana, mas já deu sinais suficientes de que tem exata dimensão da importância do cargo que ocupa. E de como pretende exercer tamanho poder. Para começar, não quer perder tempo com discussões ideológicas fúteis e ultrapassadas. Obama não está interessado em se definir de direita ou esquerda, em fazer média com movimentos pseudo-sociais ou em bancar o herói revolucionário. Obama quer fazer o que é certo. E parece bastante disposto a encarar o desafio. No primeiro dia de governo após as festividades de posse, anunciou o fechamento, em um ano, da prisão de Gunatánamo, aberração jurídica encravada em Cuba. Não precisou consultar ninguém nem fazer discursos pró-líderes do terceiro mundo. Não é nisso que está interessado. Fechar Guantánamo não é uma concessão a Cuba ou uma abertura ao socialismo. É apenas a postura coerente de um professor de direito para quem a liberdade e o Estado de direito sempre foram valores fundamentais. E que, investido de um cargo que o possibilita se livrar de uma monstruosidade onde pessoas são feitas prisioneiras sem nem mesmo acusação formal, exerceu seu poder de forma correta, determinando o fim desta excrescência. Para completar, baixou um decreto que proíbe a tortura por forças americanas. Como o Estado é grande e mesmo Potus não conhece tudo, determinou ainda o fechamento de toda e qualquer prisão secreta americana, esteja localizada onde estiver. A partir de agora, prisioneiros só à luz do dia, onde a Justiça possa ser alcançada e onde o Estado de Direito se faça presente. Aos acusados, direito de defesa garantida e o amparo da lei. Potus Obama também já se reuniu com os chefes militares, inclusive com o maior deles, Robert Gates, secretário da Defesa de Bush mantido no cargo. Potus determinou aos militares que preparem um plano para sair do Iraque em dezesseis meses. Mas as tropas não vão voltar para casa. De lá, seguem para o Afeganistão, onde pretende implantar uma democracia de fato antes de deixar o país entregue à própria sorte. No campo econômico, deixou claro que será implacável com quem fraudou ou brincou com o sistema financeiro, mas nem de longe fez uma crítica ao capitalismo. Não combateu o modo de vida americano, que defende a prosperidade e a riqueza. Pelo contrário, fez uma defesa veemente do “american way of life”. Apenas quer deixá-lo mais justo e garantir que as chances sejam iguais para todos, sem assistencialismo barato ou caridade desenfreada. Quer chances iguais, não benevolência irrestrita. E defendeu a virtude do trabalho. Tudo muito diferente de muitos líderes latino-americanos e de tantos intelectuais e políticos de esquerda brasileiros, que ainda acreditam que o trabalho é sempre a exploração de um homem sobre outro. Não para Obama que, desde o princípio, não misturou as estações. Os erros cometidos por alguns executivos não transformam o capitalista em lixo nem invalida a competição intrínseca ao sistema, que tanta prosperidade gerou ao longo das décadas. Obama quer corrigir as distorções, sem apelações ideológicas. Seus remédios para a crise global conheceremos em detalhes a partir de 16 de fevereiro, quando ele promete detalhar seu plano de recuperação econômica. Sabe-se que o pacote prevê a injeção de US$ 825 bilhões, o equivalente a mais de R$ 2 trilhões, na economia. Obama pretende gerar milhões de empregos e resgatar a confiança do consumidor americano, mas nem de longe defende a quebra de contratos, a desapropriação de empresas ou o perdão de dívidas a quem quer que seja. Se continuar com a clareza e firmeza de propósitos que marcaram seus primeiros dias no cargo, não há porque duvidar que o 44º Potus vai conseguir. O mundo agradece. CORRÊA NEVES JÚNIOR é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

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