Doctus cum libro


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O Comércio e a Difusora veicularam esta semana um comunicado, assinado por mim em nome de minha família, no qual peço ao governador do Estado, José Serra, que retire o nome de Corrêa Neves, meu pai, do novo campus da Unesp de Franca, cuja inauguração, prometida para a última sexta, foi adiada para esta terça-feira. A reação ao texto foi forte. Dezenas de leitores, ouvintes, amigos e conhecidos enviaram e-mails e faxes com palavras de solidariedade e apoio. Alguns - assinados, em maioria, como alunos “da Unesp” e que mantiveram suas identidades escondidas por detrás de prenomes ou endereços de e-mail inexistentes - reagiram mal: ironizaram o jornal e sua linha editorial, tentaram desqualificar o homenageado e atacaram até a própria família. Para eles, a Unesp é quase perfeita e os problemas são de Franca, das outras faculdades aqui instaladas ou do jornal. Bons, só “unespianos”. Bem típico. Praticamente tudo o que tinha a dizer sobre o assunto está expresso no comunicado que republicamos hoje. A decisão, amadurecida ao longo de meses, é resultado de uma profunda reflexão a partir de uma triste constatação: o nome de meu pai é um constrangimento para a Unesp de Franca e seus dirigentes. Incompreensivelmente, mas é. Assim, em respeito à importância da universidade e fiel aos princípios de educação e coerência que nos foi legado por meu pai, fiz o que tinha que fazer. A memória de Corrêa Neves não merecia outra atitude. Tampouco a Unesp que, como instituição, está muito acima da insignificância de um ou outro dirigente recalcado e de um pequeno grupo de alunos que, aparentemente, pensa que o conhecimento está restrito aos títulos acadêmicos com que sonham. Antes deste triste ponto final, há um bonito começo e um silencioso meio. A decisão de homenagear meu pai não era recente. Foi ainda em 2004 que o deputado Gilson de Souza (DEM), um político íntegro e decente, me falou pela primeira vez sobre seu plano: dar ao campus local o nome de meu pai. Seria o reconhecimento, em vida, àquele que tornara possível o embrião da universidade pública de Franca convertida, anos mais tarde, na Unesp. Gilson me pediu que o ajudasse com informações, documentos e cartas do processo de instalação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Franca. Queria tudo certo para fundamentar o projeto de lei que desejava levar ao plenário da Assembléia Legislativa. Revisitar os documentos e entrevistar algumas pessoas foi importante até mesmo para que nós, da família, esclarecêssemos alguns pontos. Seria injusto dizer que a Unesp de Franca só existe por causa de meu pai. Muitas outras pessoas, como o ex-prefeito e ex-deputado Onofre Gosuen, o ex-prefeito Hélio Palermo e o professor Alfredo Palermo, foram importantes no processo. Mas é pouco provável que o governador Adhemar de Barros tivesse tornado realidade a FFCL de Franca não fosse a pressão e a articulação pessoal de Corrêa Neves, então seu secretário de Imprensa. Era este esforço que Gilson de Souza pretendia reconhecer. Foi em março de 2005 que recebi o deputado Gilson de Souza, em minha casa, com a boa notícia. Numa manhã de domingo ensolarada, destas em que o céu fica muito azul em Franca, o próprio Gilson pode contar a meu pai a boa nova. Papai, àquela altura, convalescia da hidrocefalia de pressão aguda que acabaria por matá-lo três meses depois. Mas foi com lágrimas nos olhos, sem conseguir esboçar uma palavra por causa da enfermidade, que recebeu a notícia: o governador Geraldo Alckmin havia sancionado o projeto de lei aprovado pela Assembléia Legislativa que dava o nome de “jornalista Corrêa Neves” ao campus da Unesp de Franca. O projeto, aprovado sem ressalvas depois do parecer favorável de duas de suas comissões, abria ainda o precedente, importante, para que em outras cidades houvesse propositura semelhante, homenageando as figuras que, localmente, tinham sido importantes para o desenvolvimento de suas universidades públicas. Assim como Júlio de Mesquita, grande jornalista e incentivador das universidades paulistas, dava nome à Unesp, cada campus poderia fazer sua própria reverência à memória daqueles que tinham sido decisivos para sua existência naquela comunidade. Nunca recebi qualquer sinal de ninguém da Unesp. Nada, absolutamente nada. Não se manifestaram quando o projeto tramitou, nada disseram quando foi aprovado. Tais mestres e doutores, muitos deles em História, não procuraram um único embasamento para dizer que a homenagem a meu pai era injusta. Por certo ele não era um homem de esquerda, nem um acadêmico clássico, como parece ser o pré-requisito da Unesp para aceitar alguém em seu convívio, mas foi graças ao trabalho e esforço dele que muitos acadêmicos de esquerda têm hoje seus empregos aqui em Franca. Tais teóricos, pródigos em exigir a preservação do patrimônio alheio e em criticar, jogaram no lixo parte importante da própria história ao renegar o passado. A educação, inteligência e diligência que faltam a muitos dirigentes da Unesp sobravam em meu pai. Longe de mim dizer que era uma pessoa fácil. Era duro, mas elegante e apaixonado pelo conhcimento. Sabia se portar, onde ir e como dizer o que tinha para dizer. Não se escondia atrás de nada - nem de ninguém. Culto, era capaz de reproduzir os sermões do Padre Vieira e dos senadores romanos. Declamava trechos inteiros de poemas épicos, como Os Lusíadas, de Camões. E adorava citações latinas. Ficava admirado em como os grandes pensadores tinham sido capazes de, séculos antes de nós, descrever tão bem a grandeza e a miséria humanas. Foi imerso num dos muitos livros de citações latinas que herdei de meu pai que acabei encontrando o título para esta Gazetilha. E, penso, a síntese desta história toda. Os antigos romanos diziam que “doctus cum libro” eram os “sábios” que ostentavam ciência livresca por serem incapazes de raciocinar, de compreender o mundo que os cercava. Meu pai estava certo. Alguém, muito antes de nós, foi capaz de resumir em três palavras muito da mediocridade humana. Seja em Roma, na Europa medieval ou ainda nas almas de uma parcela importante de dirigentes de uma certa universidade paulista. CORRÊA NEVES JÚNIOR é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

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