Os anéis e os dedos


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A semana de Natal começa triste e sombria em Franca. Em uma nota oficial de poucas linhas e duro significado, a diretoria do Grupo Amazonas anunciou a demissão de 300 funcionários, cerca de um terço de sua força de trabalho instalada em Franca. Muito pouco é revelado no comunicado distribuído à imprensa às 19 horas da última sexta-feira, último dia útil antes da semana de Natal. A empresa apenas anuncia as demissões, que prefere tratar pelo eufemismo de ‘redução’; informa que os cortes atingem funcionários de todos os níveis ‘administrativo, comercial e industrial’ de suas unidades instaladas em Franca; e que se trata de uma ‘medida preventiva’ frente às turbulências e incertezas’ do cenário nacional e internacional. No meio do curto texto, após relembrar as origens da Amazonas, a assessoria de imprensa diz que, para a empresa, o que existe de mais importante em sua estrutura é ‘a pessoa’. Dizer que prioriza pessoas no instante em que põe na rua 300 funcionários às vésperas do Natal pode parecer irônico à primeira vista. Mas quem conhece um pouco a empresa sabe que, por mais paradoxal que possa parecer, a afirmação é verdadeira. A Amazonas foi a primeira e até hoje única multinacional nascida em Franca. A empresa criada para produzir artefatos de borracha - especialmente solados - para a indústria calçadista expandiu seu leque de atuação para área química, fabricando todo tipo de adesivos e solventes, além de matrizes e até uma transportadora. No seu auge, empregava milhares de funcionários em Franca, em diversos Estados brasileiros do sul ao nordeste e em países da América do Sul. A empresa sempre foi administrada com sobriedade. Seus dirigentes são austeros e discretos. O principal executivo, Amílcar, e seu grande capitão e inspirador, Omar, ambos Pucci, filho e pai, são reservadíssimos. Do primeiro, nunca vi imagem reproduzida em jornal ou revista nem nunca ouvi a voz. Do segundo, conheço apenas uma fotografia. De todos, Saulo, o primo e sobrinho, é a única face visível. Espécie de relações-públicas, Saulo é quem representa a empresa junto a entidades de classe, em eventos e cerimônias e, muitas vezes, também diante dos funcionários. Deles, nunca se soube de um escândalo, de uma atitude indigna, de uma desonestidade qualquer. Diferente de outros empresários francanos de escrúpulos mais elásticos, no Amazonas nunca houve espaço para jatinhos sem necessidade, para iates usados em passeios na lagoa, para mansões nababescas ou asseclas inúteis etc. Quando gastavam, havia sempre um viés cultural. Durante a década de 80, por exemplo, a Amazonas distribuía, como brinde de fim de ano, discos (de vinil, é claro) com prensagens feitas exclusivamente para a empresa, obras-primas do bom gosto. Um deles, uma homenagem ao maestro Tom Jobim, não me sai da memória até hoje. Os Pucci sempre foram gente de bem. Pertencer ao Grupo Amazonas também foi, durante muito tempo, a grande aspiração do trabalhador francano. A empresa, muito estável, nunca demitia. Era emprego ‘para vida toda’. Seus funcionários gozavam de toda sorte de benefícios, tudo inédito para a época. Havia um clube lindo para seus funcionários, prêmios, treinamentos. O plano de saúde não só valia para o funcionário e seus familiares como era mantido quando se aposentavam. Era uma empresa que cuidava dos seus não apenas durante a fase produtiva,também mantinha a atenção quando era chegada a hora do trabalhador se afastar. Hoje a realidade é bem mais dura. O benefício para os aposentados não existe já há um bom tempo. Há anos a empresa oferece programas de demissão voluntária para reduzir o quadro de funcionários. Desde 2007, as medidas de ajuste se intensificaram. A outrora gigante hoje emprega apenas 600 pessoas em Franca. Permanecem intocadas a sede, bem cuidada como sempre, e os princípios de seus acionistas. É triste que uma empresa com valores tão bonitos definhe. Imagino o tamanho do problema que levou a empresa a esta última medida. Não combina com a Amazonas e, se assim fizeram, é porque a água há muito ultrapassou o joelho. E é bem possível que, além da crise internacional, alguma linha de crédito com a qual contavam tenha sido cancelada. Só isso poderia explicar a demissão tão próxima do Natal. É difícil imaginar qual será o futuro do Grupo Amazonas, se é que haverá um. Por seu amor à empresa e às pessoas que nela trabalham é bastante provável que, ao longo dos anos, seus dirigentes tenham se recusado a fazer os cortes necessários no momento adequado à espera de um amanhã melhor, de um governo mais lúcido que fomentasse a atividade produtiva, de uma legislação que não punisse quem beneficie seus funcionários com decisões judiciais absurdas, de bancos que entendessem que a lógica de quem produz é diferente da lógica de quem especula. Mas este amanhã nunca chegou. A quem acompanha de fora resta torcer para que, agora, a medida tenha sido suficiente e que os executivos do grupo saibam o que estão fazendo. Devem ir ao anéis e ficar os dedos. É só o que nos resta: torcer, e muito. Por tudo o que significa, o Grupo Amazonas não merece desaparecer. CORRÊA NEVES JÚNIOR é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

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