Boa parte dos leitores tem acompanhado, com atenção e tristeza, as circunstâncias que envolvem a morte de Gabriel Posterano Matias, de apenas 10 anos. O garoto se afogou na piscina do clube Internacional quando participava de uma aula, promovida pela Prefeitura de Franca, na tarde de quinta-feira da semana passada.
A aula já tinha se encerrado quando Gabriel decidiu ‘dar uma ponta’, um último mergulho antes de sair da piscina.
Foi então que o que parecia inimaginável aconteceu. Gabriel foi tragado por um buraco aberto na piscina. Adolescentes que estavam no local mergulharam para tentar salvá-lo, mas Gabriel estava preso, sugado por um cano. A professora acionou os Bombeiros. O resgate chegou ao local em cinco minutos, retirou o garoto da água ainda com vida mas não conseguiu evitar o pior. Gabriel morreu ao chegar ao hospital.
Pouco há a acrescentar sobre o que teria motivado Gabriel a levar a mão ao buraco por onde acabaria tragado para a morte. Mas muito precisa ser dito sobre as omissões e negligências que, somadas, impediram que esta tragédia fosse reduzida a um simples incidente. Ou, quem sabe, nem tivesse existido. A começar, por quem deveria ter a decência de assumir imediatamente suas responsabilidades.
O primeiro da lista é o presidente do clube Internacional, Antônio Flauzino, o Tuniquinho. Cinco longos e injustificáveis dias separam a morte de Gabriel da sua primeira manifestação. Durante este período, Tuniquinho desapareceu. Só ressurgiu numa pouco edificante entrevista concedida ao programa Hora da Verdade, da Difusora, na última terça-feira. Durante catorze minutos, o que fez foi tentar se agarrar a tecnicidades que não interessam a ninguém, senão à perícia, para contra-atacar. Mirou especialmente a imprensa, que chamou de ‘sensacionalista’. Para o garoto morto ou sua família, poucas palavras foram reservadas. De tão irrelevante, seria melhor que tivesse ficado quieto.
No seu ‘desabafo’, Tuniquinho mostrou-se especialmente irritado com a imprensa por ter mencionado que havia uma ‘grade’ ou ‘ralo’ na piscina. Para ele, dizer ‘tampa’ é completamente diferente. Também fez questão de dizer que é ‘mentira’ que exista uma bomba de sucção que puxe a água. Trata-se, segundo o presidente, de uma ‘queda natural’ que leva a água para o sistema de filtragem. A informação sobre a bomba foi transmitida aos repórteres pelo capitão Alexandre dos Santos, do Corpo de Bombeiros. Ainda segundo Tuniquinho, o braço de Gabriel não teria sido ‘sugado’, mas sim ficado preso ao buraco por um ‘sistema mecânico’. Sobre o salva-vidas, disse que ‘não sabia’ se havia ou não um profissional nem quis dizer se era responsabilidade do clube - ou da Prefeitura, que ministra as aulas - manter um de plantão. Horas mais tarde, em entrevista ao Comércio, admitiu que nenhum salva-vidas estava no Internacional no momento da tragédia.
Seu súbito desaparecimento mereceu explicação rude: disse que mudou de celular há oito meses e insinuou que seria obrigação dos repórteres conhecer o novo número ou onde ele mora. Talvez, se tivessem os jornalistas o dom da adivinhação. Quem não precisaria de dom nenhum é o próprio Tuniquinho para concluir que, diante de uma tragédia nas dependências do clube que preside, o mínimo que deveria fazer é apresentar-se para enfrentar a situação.
Também seria bom o presidente entender, de uma vez por todas, que é secundário, neste instante, se o que puxa a água para fora da piscina é uma ‘bomba de sucção’ ou ‘queda natural’, se o braço de Gabriel ficou preso porque foi ‘sugado’ ou por ‘sistema mecânico’ e, muito menos, se a porcaria que cobre o buraco se chama ‘tampa’, ‘ralo’ ou ‘grade’.
O fato concreto é que um buraco por onde escorre água para fora da piscina estava aberto quando deveria estar fechado, que alguma força física prendeu o braço de Gabriel e impediu que ele fosse resgatado por quem tentou tirá-lo da piscina num primeiro instante e que, tristemente, não havia ‘salva-vidas’ - ou guarda-vidas, como são chamados hoje em dia - na hora da tragédia.
Culpa direta pelo que houve Tuniquinho não tem, já que ninguém é insano de exigir que ele estivesse a todo tempo em todas as dependências verificando o que se passa. Mas da responsabilidade, ele não pode fugir. Uma coisa é diferente da outra. Quem se candidata a um cargo qualquer tem que estar pronto para os benefícios que colhe - e para as responsabilidades que carrega. Ninguém forçou Tuniquinho a presidir o Internacional. No cargo máximo, é o responsável pelo que acontece ali. Inclusive, pelas vidas de seus freqüentadores.
Gabriel não morreu simplesmente afogado. Ficou preso no fundo da piscina de um clube freqüentado por milhares de pessoas, sem que houvesse um salva-vidas apto a socorrê-lo quando foi necessário e sem que ninguém tenha, por enquanto, certeza do que aconteceu.
Daqui a pouco, milhares de pessoas, muitas delas crianças, estarão de volta às piscinas do Internacional. Amparar a família enlutada e tomar providências para que nada semelhante volte a acontecer é o mínimo que Tuniquinho pode - e deve - fazer.
CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca
jrneves@comerciodafranca.com.br
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