O nosso capitão Smith


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Praticamente todo mundo conhece, em linhas gerais, a história do Titanic, o navio que naufragou, durante sua viagem inaugural, em 1912. Considerado indestrutível, o navio zarpou da Inglaterra, em 10 de abril de 1912, com destino a Nova York, onde deveria chegar uma semana depois. Terminou abruptamente sua única viagem na madrugada de 15 de abril quando, após colidir com um iceberg, naufragou. Salvaram-se apenas 705 passageiros. Oficialmente, 1.522 pessoas morreram. O que pouca gente sabe é que a tragédia era completamente evitável. Não fosse a personalidade peculiar de seu capitão, Edward Smith, somada à arrogância dos tripulantes, a história seria outra. Explico. Desde 36 horas antes do trágico impacto a tripulação do Titanic recebia avisos sobre a presença de imensos blocos de gelo em sua rota. A primeira mensagem foi enviada às 10h30 do dia 13 de abril pelo navio Rappahannock. Foi ignorada. Na manhã do dia seguinte, domingo, um outro alerta, desta vez enviado pelo S. S. Caronia, reafirmava a presença de icebergs naquela caminho. Ninguém deu bola. Muito pelo contrário, o capitão Smith manteve a ordem dada à casa de máquinas na madrugada anterior: força total. Naquele instante, 24 das 29 caldeiras impulsionavam o navio. O orgulhoso comandante queria, em sua derradeira viagem antes da aposentadoria, bater o recorde de velocidade na travessia transatlântica. Os alertas se seguiram. Às 11h40, às 13h45. Às 19h30, o S. S. Californian sinalizava que havia três grandes blocos de gelo 80 km à frente do Titanic. O capitão Smith recomendou apenas atenção aos dois vigias que, do alto dos cestos no mastro principal, tinham a missão de avisar se vissem algo à frente. Isto mesmo depois de tantos alertas e sabendo que, de noite, sem binóculos - a tripulação os havia esquecido na Inglaterra - enxergar qualquer coisa a tempo de evitar o pior seria impossível. Às 21h40, novo aviso. Às 22h55, o S S. California voltava a alertar: estava ancorado no meio dos enormes icebergs. O Titanic cortou a comunicação. Eram 23h40 quando os vigias tocaram o sino e gritaram “iceberg à frente”. A montanha de gelo estava a 460 metros de distância. O oficial no comando - o capitão fora dormir - tentou frear o navio e colocar os motores em reversão, mas a medida não evitou o choque. Minutos mais tarde, o capitão Smith receberia a confirmação do destino do navio: havia no máximo uma hora e meia antes do Titanic naufragar. O resto da história, todo mundo conhece. Na última terça-feira, durante palestra do consultor em calçados Zdeneck Pracuch aqui no Comércio, tive a impressão de ter reencontrado o capitão Edward Smith. A mim, ele pareceu reencarnado em Arsênio de Freitas, dirigente de uma empresa que organiza feiras em Franca. Depois de mais de duas horas de uma palestra profunda e envolvente, e de um debate onde todos se mostravam preocupados com a extensão da crise financeira internacional e de seu impacto sobre a indústria calçadista francana, Arsênio se apresentou. “Como comentarista econômico, dou nota zero ao senhor Pracuch”. Na seqüência, disse que “não existe crise nenhuma” e que tudo “é invenção da imprensa”. Dois milhões de americanos - todos eles, compradores de sapatos - perderam o emprego neste ano. Grandes corporações, como General Motors, estão ameaçadas de falir. Alguns bancos já quebraram, e outros, como o Citibank, só sobreviveram com o apoio do Tesouro americano. Líderes de todo o mundo se reúnem em busca de uma solução. Japão, França e Alemanha caminham para recessão, na qual os EUA já estão imersos. No Brasil, empresas de todos os portes amargam prejuízos. Quase meio milhão de veículos estão parados nos pátios das montadores. O país já queimou R$ 50 bilhões de suas reservas cambiais para tentar segurar a disparada do dólar, em vão. A Vale do Rio Doce perdeu 2/3 de seu valor de mercado. Bancos congelaram o crédito e ninguém, em sã consciência, ignora a crise, tida por todos os experts como a pior desde a quebra da bolsa de Nova York, em 1929. Todos, menos Arsênio. Para ele, tudo está “maravilhoso”. Tal qual o capitão Smith, Arsênio refuta o óbvio, o que está à sua frente. Mesmo depois de ouvir dados irrefutáveis apresentados por Pracuch, Arsênio insiste que as empresas calçadistas de Franca “nunca foram tão bem administradas”. Da mesma maneira que o capitão ignorou seis alertas de icebergs, Arsênio duvida do noticiário que aponta terremoto à frente. Prefere desqualificar a imprensa. Acho o otimismo de Arsênio um tanto exagerado. Preparar-se para tempos difíceis é o mínimo que se pode fazer. Ainda assim, não significa que todos conseguirão vencer os desafios. Apenas melhora as chances. Há quase 100 anos, uma mudança de rota teria evitado o pior. O capitão Smith preferiu ignorar tudo e correr atrás de sua glória. Morreu ao lado dos passageiros sobre os quais tinha responsabilidade, depois de emitir um SOS, sigla para socorro que em inglês quer dizer Salvem Nossas Almas (‘Save Our Souls’). Melhorar a produtividade de nossas empresas, evitar todo e qualquer desperdício, modernizar as técnicas de gestão e informar-se sobre o que acontece no mundo foram alguns dos conselhos de Pracuch que Arsênio parece desdenhar. Agora nos resta esperar para ver se, de algum modo, o otimismo de Arsênio de Freitas se justifica. Porque de Edward Smith, já conhecemos toda a história. CORRÊA NEVES JÚNIOR é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

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