Serra, o professor


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"A leitura do jornal diário é a oração matinal cotidiana do homem realista" Hegel, filósofo alemão (1805) Tive o privilégio de conhecer pessoalmente, ao longo de minha vida, boa parte dos mais importantes políticos brasileiros. Por conta de minha atividade profissional, conheci quase todos os presidentes da República vivos, governadores de Estado, ministros, senadores e deputados - federais ou estaduais. Na absoluta maioria das vezes, foram encontros rápidos. Visitas de cortesia à nossa sede, ao estande do jornal na Francal, encontros em algum evento ou entrevistas das quais participei como repórter. De todos, só com uma pequena minoria pude experimentar algum tipo de vivência mais íntima - ainda que relativa. Foram ocasiões especiais, onde o tempo habitualmente contado em minutos nestas ocasiões foi substituído por horas. E a conversa, restrita a amenidades e superficialidades no mais das vezes, transcendeu para uma experiência muito mais rica. Um destes momentos vivi na última terça-feira. A convite de Fernando Salerno, ex-presidente da Associação Paulista de Jornais, os diretores dos 14 maiores jornais do interior paulista - grupo do qual o Comércio faz parte - se reuniram com o governador José Serra para um jantar na capital. O encontro foi na casa do próprio Salerno e os convites restritos a trinta privilegiados, aí incluídos, além do governador José Serra, dois secretários de Estado e uns poucos políticos. Na noite da última terça-feira, pude conhecer outras facetas deste homem tido por muitos como o mais preparado para governar o Brasil, dono de uma inteligência e capacidade reverenciadas por apoiadores e adversários quase na mesma medida em que seu gênio difícil e humor instável despertam irritação. Serra estava à vontade. Sem a multidão de assessores que habitualmente cerca quem ocupa um cargo desta importância, não tinha pressa alguma. Passava um pouco das 22 horas quando o governador chegou à casa de Salerno. Dali sairia apenas quase quatro depois, já na madrugada de quarta-feira. Incansável, falou sobre os temas mais diversos possíveis. Da reforma tributária aprovada em Brasília e da qual é crítico ferrenho, do seu Palmeiras e do incômodo com os sucessivos campeonatos ganhos pelo São Paulo que fazem com que as crianças de hoje sejam todas tricolores; do tempo em que ganhava a vida como editorialista da Folha de S. Paulo e que conferiu a ele a habilidade para escrever rápido; da falta de uma história paulista registrada formalmente e do Museu que nascerá com a ambição de preencher esta lacuna; da dificuldade de governar com leis que, a pretexto de evitar a corrupção, travam a administração pública; de seus tempos no exílio. Fez autocríticas, como quando admitiu a dificuldade tucana em se comunicar e da qual não exclui nem o seu governo. Expôs detalhes da própria intimidade, ao contar algumas de suas manias. Uma delas, muito engraçada. Serra é obcecado com simetria. Tudo tem que estar regularmente dividido. “Se estou em reunião com secretários e há um grupo maior de um lado que de outro da mesa, fico nervoso, tenho que pedir para que eles mudem de lugar. É um horror”, revelou. Serra falou também do interior. De como conseguimos, longe da capital, forjar uma economia que, fosse um país independente, seria de primeiro mundo, seja por critérios de renda, educação, desenvolvimento social ou de saúde. Isso tudo apesar de, nas palavras do próprio governador, o interior paulista não sediar grandes estatais federais nem receber ajuda financeira expressiva de Brasília. José Serra falou sobre tudo, com incrível propriedade. Mas, para mim, o mais impactante foi quando o governador detalhou como funcionam as aulas que ministra na rede pública. A prática começou quando Serra elegeu-se prefeito da Capital e é mantida agora no governo. Uma vez por semana ele vai a uma escola pública qualquer e dá aulas para crianças de quarta série. É aula mesmo, com conteúdo pedagógico, explicação, exercícios. Só o final é diferente. Serra termina todas as aulas distribuindo a cada aluno um exemplar de um jornal do dia. O governador aproveita então os instantes finais para explicar aos alunos o que é a manchete, uma legenda, um artigo e, sobretudo, como se lê um jornal. No final, exalta a importância do veículo como instrumento de informação e cidadania. Claro, independente do noticiário do dia ser favorável ou contrário a seu governo ou a quem quer que seja. Constatar que José Serra, a maior autoridade do Estado, encontra tempo em sua agenda para dar aulas em escolas públicas é animador para qualquer brasileiro. Descobrir que o governador encerra sua aula reverenciando o jornal como fonte fundamental de informação e construção do caráter de um cidadão é redentor para um profissional de comunicação. Para mim, especialmente. Parabéns, governador. E muito obrigado. CORRÊA NEVES JÚNIOR é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

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