Alaúde é o nome de uma moça loira, pele muito clara, funcionária da TAM no aeroporto JFK em NY. Tem cara, jeito e cabelo de americana. A surpresa começa quando Alaúde ouve português.
Responde na mesma língua, com um indisfarçável sotaque. Ao saber que éramos de Franca, se derrete toda. ‘Ai, ai... tão pertim de Minas’. Nascida e apaixonada por Belo Horizonte, Alaúde mora há oito anos na capital do mundo. Quer dizer, trabalha e habita.
Porque não deixa passar um feriado sem vir ao Brasil. Segue direto para sua amada Belo Horizonte, onde mata as saudades dos amigos, dos sabores e da cerveja. E do filho, que deixou por aqui.
Ricardo é garçom de um restaurante italiano. Mora na mesma Nova York de Alaúde mas é pouco provável que se conheçam. Há 30 anos fora do Brasil, Ricardo perdeu toda e qualquer identidade com a pátria-mãe. Cidadão americano, votou em Obama. O português ainda domina, desde que se façam algumas concessões. A concordância escorrega sempre e muitas palavras escapam. Carne virou ‘veal’, conta é ‘check’ e Brasil, um país distante, que visitou apenas duas vezes em três décadas. ‘Moro num ovo. Mas em Manhattan’, orgulha-se.
Michael é garçom de um outro restaurante italiano. Ao ouvir o português sorridente de crianças à mesa, não resiste em soltar um ‘obrigado’ e perguntar de onde éramos. ‘Ohu, San Paolo... I know’. Perguntei de onde conhecia a capital paulista. Fácil: o sortudo rapaz namora uma goiana e, na companhia dela, passou dois meses viajando pelo Brasil.
Umberto é argentino. Mora em Orlando há oito meses. É vendedor numa loja de sapatos e gravatas. Detesta a vida que leva. Não vê a hora de voltar. Só está lá porque se casou com uma argentina e sua agora mulher já morava há um bom tempo nos Estados Unidos. ‘Eles aqui só pensam em trabalho, não são como nós, não tem os amigos, a cerveja, o papo’, reclama.’ A raiva dos EUA fez com que um argentino torcedor do Boca se referisse a brasileiros como ‘nós’.
Quase em frente à loja de Umberto trabalha Marcia. Advogada paulistana, mudou-se com o marido há treze anos para a Flórida. O marido virou ex- e o Brasil, lembrança. Voltou só uma vez e nem tem qualquer plano de repetir a experiência. Não tem saudades, não sente falta de nada. ‘Adoro viver aqui. É seguro, as pessoas se respeitam, trabalho pouco e vou para casa cedo’. Vendedora de roupas, diz que consegue ganhar o mesmo tanto de quando era advogada em São Paulo. ‘E sem estresse’. Então tá.
Amélia é lisboeta. Aposentada, é vendedora em uma loja de Downtown Disney, um centro comercial anexo ao complexo de parques onde fui em busca de uma encomenda: um leitão de pelúcia do desenho do ursinho Puff para uma amiga brasileira. O ursinho e o burrinho você acha em qualquer loja da Disney. Mas o leitão... Só nesta loja em Downtown Disney. Queria saber porque o leitão é tão pouco popular. Amélia ignora. O que ela quer mesmo é falar português.
Sente falta. Da família, não. ‘Estão todos cá comigo’. Amélia vai todo ano a Portugal. Se a família está nos Estados Unidos, pergunto a ela o que vai fazer do outro lado do Atlântico. ‘Comer bem, ora...’. É da comida que tem saudades.Dos 56 mil funcionários que trabalham nos parques, só quatro, segundo ela, são portugueses. Dei sorte. Conheci metade deles. A outra se chamava Maria. Recepcionista do hotel onde nos hospedamos em Orlando, também só falava comigo em português. Jovem, faz uma espécie de intercâmbio. Dessa sei pouco. Só que vai voltar para Portugal no começo do próximo ano
Viajei pela primeira vez ao exterior há 25 anos. Foi em 1983 que meus pais me levaram, junto com meu irmão André, aos Estados Unidos. Adorei a experiência. Tinha nove anos e me senti um extraterrestre. Ninguém sabia o que era o Brasil. Muitos achavam que era na África, que morávamos na selva e havia cobras nas ruas. Sem qualquer exagero. Passamos três semanas lá e só encontramos um brasileiro, garçom num restaurante de Miami, também única vez em que falamos português com alguém.
Agora, pude repetir a experiência. Viajei com minha mulher, Milena, minha prima Maria Eliséia e com minha filha. Por coincidência, Júlia também tinha nove anos ao viajar (completou dez na chegada). Muita coisa mudou neste quarto de século e a experiência que minha filha vivenciou é completamente diferente.
Hoje todo mundo conhece o Brasil, nossos atletas e modelos, nossa música, nossas cidades. É difícil passar hora sem que você ouça português. Há constantemente música brasileira de fundo - e não só Tom Jobim. ‘Obrigado’ e ‘Por favor’ todo mundo entende. E brasileiros - turistas - há por toda parte. Claro que, quanto mais lojas houver num ambiente, mais brasileiros haverá perto delas. Quanto mais cultural for o programa, do tipo museus ou teatro, menor a incidência de conterrâneos. Lá como cá...
Em NY, a comunidade brasileira é tão grande que a rua 46th virou ‘Little Brazil’ e dá para comer rodízio em Times Square. Em Orlando, além de restaurante por quilo, tem até supermercado só de produtos brasileiros. Além disso, no Wal Mart de lá dá para comprar guaraná Antártica. Alguém duvida de que estamos mesmo globalizados?
CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca
jrneves@comerciodafranca.com.br
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