Did you vote?


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A pergunta do título foi feita a mim no começo da noite de terça-feira passada, 04 de novembro, dia de eleições presidenciais nos Estados Unidos. Sylvia, atendente de uma cafeteria Starbucks da 5ª Avenida, em Nova York, tinha boas razões para estar curiosa. Entusiasmada apoiadora de Barack Obama, Sylvia ainda tentava, às 19h15 do dia mais importante da eleição, convencer qualquer um a votar. Claro, no senador de Illinois. Nos Estados Unidos, o voto é facultativo. Vota quem quiser, se tiver vontade. Como dia de eleição não é feriado e as empresas trabalham normalmente, cada um que se vire para encontrar tempo para votar. No máximo, empresas recomendam que seus funcionários utilizem as primeiras horas do dia para isso. No caso de Syvia, ela votaria à noite, numa escola próxima à sua casa, onde as seções eleitorais ficariam abertas até mais tarde. Àquela hora, com novas pesquisas divulgadas e as urnas já abertas em vários estados, a vitória de Obama era certa. Perguntei a ela porque o sacrifício de votar no final do dia, depois de horas de um trabalho cansativo, se a eleição estava decidida? A resposta veio direta. “Porque hoje é dia de fazer história”. Com um sorriso aberto no rosto e punhos cerrados como se comemorasse um gol, Sylvia repetia o slogan de Obama que inflamou milhões. “Yes, Mr. Neves, we can change”. Foi com o voto de gente como Sylvia que Barack Obama transformou-se no 44º presidente americano. Milhões enfrentaram filas durante horas, frio e muito desconforto para depositar seu voto nesta terça-feira histórica.Com 60 milhões de votos, Obama “mudou a cor”, como dizem por aqui, de vários estados tradicionalmente republicanos, como Indiana, onde os democratas não venciam nada há 40 anos, e a Flórida. Sai o vermelho do partido de George Bush e entra o azul de Bill Clinton. Graças a seu carisma, Obama vai governar com maioria na Câmara e no Senado. Aos 47 anos, é o primeiro negro a ocupar a Casa Branca, fato especialmente relevante num país onde as últimas barreiras raciais caíram há apenas 50 anos. De quebra, ainda inspirou milhões de jovens em todo o país - alguns, quase crianças - a se interessassem por política e saírem às ruas defendendo seu sonho de “mudança”. Acompanhei a apuração no Rockefeller Center, marco de Nova York. A cada Estado ganho por Obama, aplausos e muita vibração. Quando a rede de televisão NBC anunciou nos imensos telões ali montados que a Califórnia era de Obama e que, com os 55 votos de seus delegados ele superava a marca de 270 (número a partir do qual o candidato está eleito), o clima foi de euforia. Nem a chuva fina e fria que caía era capaz de mandar para casa a multidão. Todos esperavam o discurso de Obama. Primeiro, falou o derrotado. É uma tradição. McCain cumpriu seu papel: ligou para Obama, parabenizou-o pela vitória e reconheceu que havia perdido. Meia hora depois, Obama falou. Arrancou suspiros, gritos de “Yeah!” e muitos aplausos. Agradeceu muito sua equipe de campanha e, numa declaração que seria reproduzida globalmente, saudou “a rocha da família, a mulher da minha vida, a futura primeira-dama dos EUA, senhora Michelle Obama”. Falou em recessão e em sua preocupação com a economia, mandou mensagens de incentivo aos trabalhadores americanos e disse que sua vitória era a prova de que os Estados Unidos continuavam a terra das oportunidades, onde o sonho é possível, a democracia é sólida, a liberdade plena e tudo pode acontecer. A expectativa que pesa sobre o presidente eleito é imensa, ele se mostra muito disposto, mas é preciso um pouco mais de tempo para qualquer análise sobre o que será seu governo. Sua biografia é limpa, mas é também curta e eminentemente acadêmica. Nunca exerceu função executiva e fará, como ocupante do cargo mais importante do mundo, sua estréia num mandato executivo. É bom que o mundo esteja tão otimista com Obama, mas é bom também colocar as coisas em perspectiva. O lado de Obama é o lado do povo americano e com estes olhos ele guia suas ações. Basta observar, por exemplo, o que houve com o presidente brasileiro. Lula tentou ligar para Obama, mas não conseguiu. O presidente eleito estava muito ocupado. Sem alternativas, Lula teve que se contentar em mandar um fax com seus parabéns. Mas o tempo que faltou para atender Lula, Obama encontrou para conversar com outros nove chefes de Estado. Além do francês Nicolas Sarkozy, com quem discutiu durante meia hora ao telefone sobre a crise econômica mundial, Obama ligou pessoalmente para os chefes-de-governo ou presidentes de Austrália, Canadá, Israel, Japão, Reino Unido, México, Coréia do Sul e Alemanha. Lula é Lula, Obama é Obama e os Estados Unidos não são o Brasil. Por mais emblemática e histórica que seja a vitória de Barack Obama, ele é presidente dos Estados Unidos. Não tem nada de socialista, não é um pacifista nato apesar de rejeitar a guerra do Iraque e tem como principal objetivo governar para a classe média americana. Também quer dar um jeito de incluir no sistema de saúde os 50 milhões de americanos que estão fora por não poderem pagar planos médicos. Mas não tem idéia ainda sobre como vai cobrir esta conta e, certamente, não vai debitar na conta do Tesouro americano. Há uma enormidade de desafios à espera de Barack Obama, nenhum deles resultantes de ações suas, mas que caberá a ele administrar. Apesar de toda expectativa que cerca seu governo, é para Sylvia, aquela atendente da Starbucks, que Obama vai governar. É para ela e os milhões de anônimos que se engajaram em sua campanha que Obama quer fazer história. O Brasil e o resto do mundo vêm num outro plano, muito distante. CORRÊA NEVES JÚNIOR é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br Assista e leia o discurso de vitória completo de Barack Obama no Blog do GCN: http://gcncomunica.wordpress.com

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