Erros demais


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O mundo tem sete unidades policiais de elite onde treinamento e preparo são reconhecidamente superiores. Nelas só um pequeno número de candidatos completa todos os passos e passa a ser membro efetivo de tropas prontas para atuar em casos de combate ao crime organizado, rebeliões em presídios, caça a fugitivos, terrorismo, reconhecimento de área e invasão de edifícios. Além, claro, de serem especialistas em casos de seqüestro e resgate de reféns. Fazem parte do grupo o Bope (Batalhão de Operações Especiais) do Rio de Janeiro, o GIGN (Grupo de Intervenção da Guarda Nacional) e o Le Raid (Pesquisa, Assistência, Intervenção, Dissuasão) franceses, o GSG9 (Grupo 9) alemão, a Swat (Armas e Táticas Especiais) americana, o Omon (Grupo de Operações Especiais da Polícia) russo. E, também, o Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais) de São Paulo. O mesmo Gate do Coronel Eduardo Félix e do capitão Adriano Jovelini, responsáveis por toda operação policial que se estendeu por mais de 100 horas em Santo André e terminou com duas meninas de 15 anos baleadas. O agressor, Lindemberg Alves, foi preso. São e salvo. Lindemberg é o rapaz que na última segunda-feira invadiu o apartamento onde Eloá, sua ex-namorada, estudava com a amiga Nayara e dois colegas. Fez o grupo refém. A partir daí, assistimos a uma sucessão de erros sem precedentes. Tudo ao vivo, em tempo real, o que, por si só já é um enorme equívoco. Até um idiota como Lindemberg consegue acompanhar o noticiário transmitido ao vivo por diversas emissoras de TV e, a partir daí, verificar onde estão posicionados os policiais, o que pretendem fazer e como se defender. Ou dificultar. Nada que exija grande inteligência. Também não exige grande inteligência nem semanas de preparo ou treinamento em tropas de elite concluir que um refém resgatado jamais é entregue de volta ao seqüestrador. Se for uma menina como Nayara, sem qualquer condição para lidar com situações de risco, tanto pior. Ela havia sido libertada por Lindemberg na terça-feira. Os dois colegas, um dia antes. A decisão de mandá-la retornar ao cativeiro para tentar “sensibilizar” o agressor não merece outros adjetivos que não “estúpida” e “absurda”. Na sexta-feira, após ouvirem um estampido que ninguém pode ainda ter certeza se tratar de um tiro, policiais do Gate invadiram o cativeiro. Eloá, a namorada, foi baleada. Aparentemente, por Lindemberg, que a atingiu na cabeça e na virilha. Nayara, a refém duas vezes, sofreu sérios ferimentos na boca mas não corre risco de morte. Lindemberg, o assassino, não sofreu um único arranhão. Permanece preso e fisicamente bem. O intenso preparo a que são submetidos os policiais do Gate parece ter servido pouco para o caso real. Além da sucessão de besteiras já descritas, há ainda a maior delas: os atiradores de elite do Gate tiveram várias oportunidades, ao longo de diversos dias, para atirar e matar Lindemberg. Quem diz é o próprio oficial no comando da operação, coronel Eduardo Félix, que justifica a decisão de poupar a vida de Lindemberg por se tratar de um “jovem sem antecedentes criminais” que vivia uma “crise amorosa”. Não acredito na justificativa do comandante. O Brasil precisa parar de ter dó, pena, compaixão excessiva. É preciso, urgentemente, parar de glamourizar quem comete crime. Marginal brasileiro é retratado, quase sempre, como “vítima” do sistema, como resultado da “exploração” dos “mais ricos” sobre os “excluídos”, como “fruto da sociedade de consumo”. É assim no cinema nacional, nas nossas novelas, no noticiário de parte significativa da imprensa, na classe política, no discurso das ONGs e até numa parcela do sistema judiciário. Desejam transformar os algozes também em vítimas, como se não fosse o marginal responsável por seus atos. Tenho certeza de que a ordem para que os atiradores de elite disparassem contra Lindemberg Alves não foi dada por medo das cobranças que viriam depois. Se morto, certamente haveria enorme pressão contra os oficiais e seus comandados. Foi assim no Carandiru (transformado depois em “massacre”, sem que se lembre que, apesar dos flagrantes excessos, não se tratava de um grupo de colegiais protestando por mais meia hora de intervalo para o lanche); na tragédia do ônibus 174 no Rio (onde o filme quase exalta a figura do bandido) e em tantos outros episódios onde quem age em nome da lei é tachado de “excessivo”, “brutal”, “exterminador”. Só faltam pedir à polícia que trate os marginas com “por favor” e peçam “licença”. Pessoalmente, acho que seria muito justo que estivéssemos agora lendo notícias sobre o velório do bandido. Neste instante, ao invés disso, somos informados sobre a morte cerebral de Eloá, o sofrimento de Nayara, a dor de suas famílias. Tudo por culpa de um desequilibrado chamado Lindemberg, somado às besteiras cometidas por uma força policial de elite que agiu com receio, acuada. No máximo, se ele não fugir da cadeia, poderemos acompanhar seu julgamento. É muito pouco. CORRÊA NEVES JÚNIOR é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

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