Sinais


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Terminada a disputa eleitoral, anunciados os vencidos e conhecidos os derrotados, é hora dos inevitáveis balanços. Passados apenas sete dias do pleito, quase tudo já foi dito. No grupo dos vitoriosos, a alegria é mais que evidente. Entre os que perderam a disputa, o mal-estar e o desconforto, com raras exceções, têm sido flagrantes. Mais do que festejar ou reclamar, todos os políticos, militantes, analistas ou observadores das eleições municipais deveriam se concentrar a partir de agora em tentar entender, de fato e minimamente desprendidos de paixões, o que quis dizer o eleitor quando foi às urnas votar no último domingo. Tenho comigo que poucas vezes antes na história da cidade o eleitorado mandou um recado tão evidente a seus líderes políticos. Sidnei Rocha venceu de lavada, seus adversários perderam sem conseguir levar a disputa ao segundo turno e a Câmara de Vereadores foi fortemente renovada. Isto é o óbvio. Mas há, no substrato dos votos computados em cada seção eleitoral, muito mais significado e um alerta inúmeras vezes mais contundente - e relevante. Sidnei Rocha venceu com enorme vantagem. Conquistou 110.476 votos, o equivalente a 67% dos votos válidos. Quatro anos atrás, o mesmo Sidnei havia vencido com 57.941 votos, cerca de 37%. Em quatro anos, praticamente dobrou sua penetração no eleitorado. Seu principal opositor, o PT, tem resultado diferente. Gilson Pelizaro, o candidato deste pleito, chegou a 44.480 votos, 27% dos válidos. Mais que Cassiano Pimentel quatro anos antes que, no mesmo PT, havia atingido 21% dos votos válidos. A diferença é que, enquanto Cassiano Pimentel enfrentou um pleito onde, além do vitorioso Sidnei Rocha, disputaram o cargo Dr. Ubiali, Gilson de Souza e Ruy Piéri, Gilson Pelizaro tinha pela frente adversários bem menos relevantes do ponto de vista eleitoral. Ubiali e Gilson foram eleitos, dois anos depois, deputados federal e estadual, respectivamente. Juntos, conquistaram 34% dos votos válidos. No pleito de agora, Cristiano Rodrigues (PV), Tito Flávio (PCB) e Jorge Martins (Psol) somaram, juntos, menos de 7% de votos válidos. Pela lógica, Gilson Pelizaro deveria ter ido muito mais longe. Não foi. O absurdo é que Sidnei Rocha chegou a este resultado praticamente sem fazer campanha. Fez apenas três caminhadas e nenhum comício. Ignorou os três debates promovidos e tinha, na produção de seus programas de rádio e TV, uma estrutura semi-amadora. De campanha mesmo, apenas a presença nas sabatinas promovidas pelo Comércio/Difusora e um passeio em Pedregulho que quase lhe custa muito caro. Material de campanha, quase nenhum. Militância nas ruas, discreta. Figurões tucanos a apoiar seu nome, zero. Promessas? Esqueça. Um único recado transmitia aos eleitores: a certeza de “continuidade”. A campanha de Gilson Pelizaro foi muito diferente. Foi para rua dia e noite. Caminhou, cumprimentou, conversou. Foi a todos os debates e sabatinas. Teve, de longe, o melhor programa do horário eleitoral. Foi o único que fez comícios. Abusou dos apoios de ministros, deputados, senadores e do presidente da República. Prometeu tudo e mais um pouco. Deu em nada, assim como as campanhas de Jorge Martins e Tito Flávio, os candidatos que fizeram as propostas que mais poderiam soar como “agradáveis” aos ouvidos do eleitor: ônibus de graça, um hospital municipal, ajuda para que trabalhadores assumissem a gestão de empresas calçadistas em crise, etc. Na Câmara de Vereadores, cenário turbulento. Apenas sete vereadores foram reeleitos, a maioria muito mais como conseqüência de boas votações de suas legendas do que por mérito próprio. Conquistaram o direito de um novo mandato e permanecem na Câmara os vereadores Joaquim Ribeiro (PSB), Graciela Ambrósio (PP), Marcelo Valim (PSDB), Jépy Pereira (PSDB), Silas Cuba (PT), Ruy Engrácia (PSDB) e Valter Gomes (PSDB). Todos os reeleitos tiveram menos votos agora do que há quatro anos. Campeões de voto do passado, como Marcelo Valim, viram sua votação despencar. O radialista, que havia alcançado a impressionante soma de 5.589 votos em 2004, viu seu eleitorado cair para 3.350 agora. Perdeu 40% dos eleitores. Joaquim, Jépy, Silas, Ruy e Valter Gomes vivem situação semelhante. A única exceção à regra no Legislativo de Franca foi a delegada Graciela, que viu crescer em 50% seu percentual de votos válidos. Foi a mais votada para a Câmara e terá a honra de presidir a primeira sessão da nova legislatura. O eleitorado atual tem boa memória, acompanha o dia-a-dia da administração da cidade e é cruel com aquilo que lhes parece demagogia ou anacronismo. Além disso, pouco se deixa influenciar pelo horário eleitoral gratuito e tem paciência zero com candidatos que se apresentem rancorosos ou tergiversantes. Quer, para liderar a cidade, gente com opinião e capacidade de decisão, disposta a assumir riscos e que “pague para ver” ainda que, vez por outra, extrapole os limites. Perdoam excessos mas não a letargia, erro hoje inadmissível ao olhos do eleitor de Franca. Sidnei Rocha e Graciela Ambrósio são, cada qual a seu modo, a síntese do que quer o eleitorado de Franca. Quem duvidar disso, vai seguir perdendo. CORRÊA NEVES JÚNIOR é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

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