Luizinho


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Ele nasceu bem. Com 3,3 kg e 51 cm, o menininho tem aparência saudável como a de qualquer outro recém-nascido. Ao que tudo indica, foi parto normal, sem complicações, pouco depois de 9 horas desta sexta-feira. Seu nome é Luizinho. Dele, é praticamente tudo que se sabe. Ainda assim, é muito mais do que se conhece da mulher que lhe deu a luz. Luizinho nasceu sem mãe. Não veio ao mundo num hospital amparado por um bom médico, assistido por seus pais, muito menos cercado de carinho. Foi abandonado numa lixeira, como se fosse um pedaço de carne podre, pela mulher que o gestou. O carinho máximo que recebeu daquela que nós, muito mais afortunados, costumamos chamar de mãe, foi ser embrulhado numa toalha, ainda sujo de sangue. A tentativa de explicação dada pela improvável mãe tem 13 palavras. “Ele nasceu às 9h25. Eu não tenho condição. Por você não ter filhos”. Como um enigma, as palavras escritas por esta mulher na toalha suja mais confundem do que explicam qualquer coisa. Não fazem sentido, nada sinalizam sobre o gesto, por mais absurdo que pudessem ser os argumentos. Apenas fixam um marco para o início da existência de Luizinho: 9h25 de sexta-feira. Do resto, nada se extrai. A história de Luizinho, registrada nas páginas de sábado do Comércio, me perturbou. Acabei de chegar de uma viagem importante e planejava escrever hoje sobre minha experiência no Congresso Brasileiro de Jornais, na última semana. Às 23h13 de sábado, quando teclo estas palavras, esta Gazetilha deveria estar pronta há horas. Ainda não consegui. Desde a tarde de sexta-feira, a sina de Luizinho não me sai da cabeça. Tento imaginar as condições desta concepção, da gravidez. Como ela descobriu? Será que foi ao médico ou fez um teste de farmácia? Talvez seja uma mulher casada... É adolescente ou adulta? Será que Luizinho é resultado de algum relacionamento extraconjugal? Ela trabalha? Como conseguiu esconder a gravidez? Ninguém sabia de nada, ninguém viu nada, nenhuma colega percebeu a barriga crescer? E o pai? Ele tem idéia do que se passa? Ele concordou com isso? O que mais me atormenta é imaginar onde a mulher abandonou Luizinho. Por que deixar o bebê numa lixeira, como coisa que se joga fora, que se descarta? Não dava para colocar diante de uma casa, tocar a campainha e sair correndo? Como teve coragem de, depois de parir, largar sua cria sozinha, ignorando instintos animais básicos. Não que mudasse muito sobre o caráter desta mulher, mas o simbolismo da lixeira reduz a vida a uma insignificância impressionante. Mesmo assim, Luizinho tem sorte. Resistiu a uma gravidez absurda, sobreviveu a um parto improvável. Recém-nascido, venceu as primeiras horas neste mundo sozinho, sem nenhum amparo. Foi encontrado por um aposentado que passava pela rua para visitar a filha e só foi até a lixeira onde estava Luizinho porque havia esquecido os óculos em casa. A polícia foi acionada, o bebê levado para a Santa Casa e, desde a tarde de sexta-feira, recebe os cuidados reservados a qualquer homo sapiens recém-nascido. Luizinho, o nome, foi dado pelas enfermeiras. Não sei se elas sabem a origem, mas impossível pensar num nome mais apropriado para esta criança. Luiz vem do latim e significa “guerreiro glorioso”. Luizinho é, portanto, o pequeno guerreiro, já de muitas batalhas vencidas em suas primeiras horas neste mundo. Uma vida de possibilidades se abre agora para Luizinho, Que uma boa família possa adotá-lo e criá-lo com amor, respeito, valores, princípios. Que Luizinho seja feliz. Quanto à mulher que o trouxe ao mundo, nem é preciso encontrá-la e puni-la. Ter que acordar dia após dia com a lembrança de que atirou o próprio filho ao lixo é o bastante. Viver é o maior castigo que esta mulher pode enfrentar. CORRÊA NEVES JÚNIOR é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

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