Sou agnóstico. Os que pensam como eu, do ponto de vista filosófico-religioso, vivem no meio do caminho. Somos simpáticos ao pensamento de Kant, o grande filósofo alemão, e de Thomas Huxley (avô do célebre escritor Aldous Huxley, autor de Admirável Mundo Novo). Na prática, vivemos em crise de identidade com o divino. Não acreditamos que seja possível algum dia comprovar a existência de um poder superior, mas também rejeitamos que a Ciência seja capaz de negá-la definitivamente. O ponto crucial para os agnósticos é que, tal como formulado por Kant e Huxley em 1876, não há como resolver a dúvida. O impasse persistirá, sempre.
Admito, entretanto, que em meus 34 anos de vida fui mais tentado a duvidar da existência de Deus do que em aceitá-la. Nunca entendi muito bem como, num mundo pretensamente criado à imagem e semelhança do Criador, existiriam guerras capazes de ceifar populações inteiras. Como, a partir da vontade de um único tirano, milhões de pessoas puderam ser simplesmente dizimadas, como na Rússia de Stálin? Como Ele pôde permitir o Holocausto com seus fornos crematórios aos quais Hitler submeteu nada menos de 6 milhões de judeus? Logo eles, os judeus, o mesmo povo de Cristo.
Nunca aceitei como Ele permitiria que centenas de milhares fossem mutilados em guerras tribais na África ou que tenha simplesmente observado, impassível, outros tantos serem queimados em fogueiras sob a acusação de “heresia” ao longo da idade média a mando da sua Igreja neste planeta. Que veja crianças morrer de câncer, de Aids, de fome, sem chance de defesa.
Deus sempre me pareceu incompatível com tudo isso. Porque, se Ele tudo pode, resolveria numa canetada só. Admitir um Deus inerte neste mundo seria acreditar que Ele exerce seu poder superior de forma sádica, divertindo-se com o sofrimento de quem nada pode fazer, muitas vezes negando auxílio a quem suplica, de oração em oração, por ajuda.
Mas... Há o que não se explica.
Marcela Galante morreu sexta-feira. Triste, mas sua morte é menor diante do significado de seus 20 meses de vida. Bebê temporão de uma família de agricultores de Patrocínio Paulista, Marcela não deveria existir. Concebida, não poderia nascer. Era anencéfala. Sem cérebro, não deveria sobreviver mais do que alguns minutos fora do ventre da mãe.
Marcela deveria ter sido abortada. Era a recomendação de médicos e cientistas. Assim determinava o bom senso. Não para Cacilda, a mãe. Dizia querer ter a filha, ainda que para sobreviver segundos. Marcela foi muito além.
Desde o início, especialistas tentavam explicar como ela vencera as primeiras horas. Deram-lhe dias de vida, “fato raríssimo” para um anencéfalo. Mas Marcela completou uma semana. Depois duas. Um mês. Um especialista sentenciou que, como tinha parte do tronco cerebral, poderia atingir três, quatro meses de vida. Não mais. Marcela fez seis meses. Foi para casa com a mãe. Vestiu roupinhas de bebê, deitou no colo de Cacilda, esboçou reações que os médicos diziam instintivas mas que a mãe, tem certeza, eram de carinho. Marcela comemorou um ano. Comoveu o mundo.
Marcela morreu na sexta-feira mas, como disse antes, é fato menor em sua biografia. Todos morreremos. Cacilda, eu, você que me lê. O ilógico foi Marcela ter vivido. Isso não poderia ter acontecido segundo o pensamento racional. Mas, por 20 meses, Marcela desafiou conceitos modernos da ciência sobre o que é vida.
O caso impõe reflexões. A morte para um anencéfalo não é mais certeza imediata. Dizer a uma mãe que deve abortar porque a criança vai morrer em instantes é muito diferente de defender a mesma coisa diante da chance do bebê viver quase dois anos. Quem pode garantir que estará vivo em 2010?
Sou agnóstico, não insensível. Em momentos como o nascimento e morte de Marcela, sou forçado a reconhecer que é bastante provável que algum tipo de poder superior exista. Kant diria que será impossível comprovar. Diante de Marcela Galante e da força de sua mãe, Cacilda, provar é irrelevante.
CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca
jrneves@comerciodafranca.com.br
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