O drama da falta d’água, que há uma semana castiga Franca e Restinga, expôs com crueza a total falta de preparo de nossas autoridades para enfrentar desastres, sejam eles naturais - ou não.
Problemas acontecem. Numa operação tão complexa quanto a captação, o tratamento e a distribuição de água, diria que são até esperados. Mas a postura dos responsáveis pelo planejamento da desastrosa operação de manutenção desencadeada no último domingo, e a conseqüente reação de todos a quem competia alguma responsabilidade em lidar com as conseqüências do problema na adutora, foram sofríveis.
O planejamento da própria manutenção, domingo passado, foi muito mal feito. Ninguém precisa ser expert em hidráulica para deduzir o óbvio: mexer num sistema que responde pelo abastecimento de água de mais de 300 mil pessoas requer muitos cuidados. O primeiro e mais básico: avisar todo mundo sobre o que vai acontecer.
A Sabesp não veiculou um único comunicado - nas empresas que dirijo ou em qualquer outra - alertando a população sobre a manutenção que seria feita. Ainda no domingo, milhares de pessoas foram surpreendidas em suas casas com as torneiras secas.
O problema estava apenas no começo. Os desencontros, idem. A edição de terça-feira do Comércio já trazia imagens tristes de pessoas disputando água onde quer que o líquido fosse encontrado: minas, bicas, poços artesianos. Trazia também declarações de dirigentes da Sabesp com previsões sobre a retomada gradual do abastecimento.
Desnecessário detalhar o quanto a previsão estava errada. Haveria novos problemas na adutora, uma equipe de 20 técnicos seria deslocada de São Paulo para trabalhar na solução dos problemas e o próprio presidente da Sabesp, Gesner de Oliveira, viria à cidade duas vezes em 48 horas antes que o abastecimento estivesse normalizado.
Não faltam exemplos de quão despreparadas estão nossas autoridades para enfrentar uma crise como esta. A partir de terça-feira, quando o problema agravou-se, o telefone de informações da Sabesp entrou em pane. Os caminhões-pipa seguiam para os bairros sem prévio aviso, sem que as pessoas soubessem para onde ou a que horas se dirigir para conseguir um balde d’água.
Em alguns bairros, houve distúrbios, com pessoas ateando fogo no meio da rua. A Guarda Civil se preocupava em multar quem parava o carro em local proibido para conseguir um pote d’água que fosse. Mais despropositado, impossível.
Creches ficaram sem água enquanto um empresário insensível, utilizando alguma conexão espúria, conseguiu água dos caminhões da Sabesp. Gente idosa ou com dificuldade de locomoção não teve qualquer amparo especial do poder público, atordoado com o que acontecia.
No Brasil, nunca nos preparamos para nada. As autoridades responsáveis, especialmente. Talvez porque não tenhamos terremotos, tsunamis, nevascas, frio extremo, guerras ou nada parecido - todas situações que exigem trabalho em equipe, coordenação, empenho e senso de coletivo para serem superadas - não tenhamos nem mesmo aprendido a nos preparar. Assim, as reações são sempre improvisadas, na base do mais ou menos.
A falta d’água em Franca é um exemplo. Uma companhia mais prudente teria avisado a população sobre o que pretendia fazer. Contaria com equipes de emergência e, desde o início, colocaria pessoal suficiente de plantão para manter todos informados, além de caminhões-pipa em quantidade suficiente para qualquer eventualidade.
Uma defesa civil inteligente agiria em conjunto. Saberia quais os pontos nevrálgicos da cidade. Teria um mapa com as creches e áreas emergenciais. Saberia para onde deslocar os caminhões-pipa e, em sintonia com a Guarda Civil e a Polícia Militar, organizaria horários e esquemas de distribuição de água. Informaria ainda os veículos de comunicação, que manteriam a população orientada sobre como agir.
É fácil, custa pouco e não requer grande inteligência. Basta o mínimo de vontade e bom senso de quem tem a responsabilidade de decidir. Não elimina o problema, mas torna menos sofridas as horas de quem nada pode fazer a não ser esperar até que tudo seja resolvido.
CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca
jrneves@comerciodafranca.com.br
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