A Abrapec (Associação Brasileira de Assistência às Pessoas com Câncer) de Franca pode ter desviado cerca de R$ 4,9 milhões em seus 20 meses de atuação na cidade. A denúncia partiu de ex-funcionárias e do presidente da Fundação Santa Casa, Onofre Trajano. A suspeita é que a sucursal tenha sido utilizada como fachada para a apropriação indébita de doações dos francanos. O caso será investigado pela Procuradoria da República e os responsáveis pela entidade poderão ser indiciados por vários crimes.
Há um ano e dez meses na cidade, segundo relato das ex-colaboradoras, a Abrapec teria arrecadado a impressionante cifra de R$ 5,6 milhões (veja quadro ao lado). De acordo com informação da assessoria de imprensa da ONG, as despesas ficaram em torno de R$ 700 mil no período. Diante dos números apresentados pelas denunciantes, somente 12,5% dos R$ 5,6 milhões teriam sido utilizados em ajuda a pacientes com câncer.
Se confirmadas as denúncias, a cada dia de funcionamento, a Abrapec local arrecada R$ 9,2 mil, sendo que, deste valor, R$ 1,1 mil vai para os reais destinatários das doações.
A DENÚNCIA
As operadoras de telemarketing Tereza Geraldo Lisboa, 46, e LFCM, 40, decidiram denunciar a suposta fraude após estranharem a pequena quantidade de pessoas atendidas diante do grande volume de arrecadações. “Comecei a perceber que estava fazendo uma coisa ilegal, tirando dinheiro de pessoas que precisam de ajuda. Passei a ver que estava enriquecendo um bando de pessoas que começa lá em São Paulo e não tem fim”, disse. “Cheguei a fazer campanha para uma pessoa que já tinha morrido”.
Tereza disse que a Abrapec funcionava como uma “máquina arrecadadora”. Os doadores eram classificados de acordo com suas posses, em classes A, B e C. Os 20 operadores da ONG tinham maneiras diferentes de abordagem. “Eram cinco para o público ‘A’, cinco para o ‘B’ e outros dez para o ‘C’. Aí, se a gente olhava na lista telefônica e via que era um médico, ou advogado, pessoa que tem dinheiro, já sabia que dava para retirar mais dela”, revela Terezinha.
Onofre Trajano, que também é provedor do Hospital do Câncer de Franca, está revoltado com a situação. “Eles ligavam para as casas das pessoas e pediam dinheiro dizendo que era para ajudar o HC. Faziam caixa dois: davam dinheiro a um ou dois doentes e sumiam com o resto”, disse, na quinta-feira, ao Comércio.
O OUTRO LADO
O assessor de imprensa da Abrapec em São Paulo, Paulo Alziro, disse que as denúncias contra a associação são infundadas. “Estou perplexo. A Abrapec trata com todo respeito o dinheiro dos doadores”. Alziro condenou ainda a prisão de 16 diretores da entidade, no Paraná, sob a suspeita de terem desviado R$ 30 milhões em doações. De acordo com a polícia, o esquema envolve mais de 50 filiais.
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