A Samello está parada há 36 dias. Sem pagar salários desde setembro, já demitiu cerca de 70% dos 400 funcionários que contava antes da crise. Ingressou, no dia 14, com um pedido de recuperação judicial para tentar ganhar fôlego e diminuir a pressão dos credores. A grave situação, porém, restringe-se à produção própria de calçados nas fábricas de Franca e da Paraíba e não atingiu as outras ramificações do grupo. Uma destas filiais, a Samello Franchising, tem sido uma solução para driblar a crise da matriz, com a terceirização e o fornecimento dos produtos Samello a 16 franqueados em todo o País. O sapato com a marca da empresa, pelo menos nas franquias, continua disponível e sem problemas.
O encarregado do setor de abastecimento da Samello Franchising, Marcos Rodrigues, revelou que pelo menos 30 empresas, em Franca, São Paulo e em Novo Hamburgo, são autorizadas a fabricar calçados masculinos e femininos, cintos e bolsas, todos com a marca Samello. “São produzidos entre 20 mil e 25 mil pares mensalmente para o abastecimento exclusivo dos franqueados”, disse.
Rodrigues afirma que a crise na “fábrica-mãe” em nada abala a produção da Franchising que espera vender 50% a mais com a chegada do fim de ano. “São empresas que, embora vinculadas ao mesmo grupo, são independentes administrativamente. A Calçados Samello é, simplesmente, mais um de nossos fornecedores”.
Uma destas empresas terceirizadas é a Calçados Bordallo. No ano passado, produziu 30 mil pares para a Samello. Em 2006, a previsão é mais modesta, de 18 mil. O gerente comercial, Jean Marques, explica que a queda não tem relação com a paralisação da fábrica da Samello. “Nosso negócio é diretamente com a Franchising, que faz o pedido e revisa a produção. Apesar de ter caído um pouco o número de pedidos, é uma parceria vantajosa para todos”, disse ele.
A encarregada de planejamento da Calçados Radamés, Gisele Caren Cintra, disse que os modelos são criados e repassados à Franchising. Se aprovados, vão para a linha de produção. “A Samello mesmo entra só com o nome. Nós fabricamos e colocamos a etiqueta deles”.
A Samello não revelou os valores movimentados no negócio de franquias. As contas e projeções feitas a respeito, portanto, são imprecisas, mas ajudam a indicar o volume o tamanho do negócio. Analistas avaliaram que, considerando um preço de R$ 230 para venda do par de sapato, se os 20 mil pares produzidos pelas terceirizadas forem vendidos, a família recebe R$ 460 mil mensais refe-rentes somente aos royalties (taxa de licenciamento para uso da marca) pagos pelas franquias.
SEM PAGAMENTO
Enquanto o negócio com as franquias vai bem, a situação dos funcionários da Calçados Samello permanece ruim. Sem receber salários desde setembro, os cerca de 90 trabalhadores que permanecem vinculados à empresa vão fazendo o que podem para sobreviver. Um deles é o pespontador ACHN, 29. “Estou fazendo bicos em uma banca, senão morro de fome”, disse. No dia 14, a Samello, baseada na nova Lei de Falências, ingressou com um pedido de recuperação judicial no Fórum de Franca. Segundo o site do Tribunal de Justiça, o processo, que corre sob sigilo, ainda não foi julgado.
O presidente da Samello, Miguel Sábio de Mello Neto, que tratou com clareza a crise da empresa nos últimos 40 dias, tem evitado, nas últimas semanas, falar com a imprensa. Não foi encontrado em seu escritório nem no celular.
Colaborou - Luís Henrique Brandão
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