Angélica de Oliveira Rissi
Acredito piamente que a solução para os maiores problemas que enfrentamos atualmente em sociedade está em atitudes simples e eficazes que um governo bem orientado e engajado pode produzir por custos mínimos.
Quando falamos de reciclagem, logo pensamos em um processo de reutilização de um material já processado. Trata-se de um raciocínio lógico, todavia é necessário envolver mais dados para o complemento desse raciocínio: a percepção da “logística integral” que envolve o lixo.
Assim como cresce a população também aumentam os detritos e a biomassa produzida nas cidades não retorna ao solo.
Freqüentemente “essa massa” é encaminhada, em sua maior parte, para lixões e em menor parte para aterros sanitários, ocupando um espaço valioso e, infelizmente, deixando de ser reciclada.
O fato é que nenhuma cidade ou país “escolhe” os seus próprios detritos e cada sociedade deixa resquícios do seu modo de vida. Dessa forma, quanto mais elevada uma classe social, mais imponente é o seu lixo, composto especialmente de embalagens plásticas, garrafas pets, latas de alumínio, vidro e objetos em desuso. Outro dado: quanto menor o poder aquisitivo de uma sociedade, maiores são as quantidades de detritos alimentares encontradas no lixo.
Sabemos todos que o grande entrave de empresas recicladoras não é exatamente o trabalho da reciclagem, mas o que antecede e possibilita que a reciclagem seja possível: uma coleta seletiva eficiente. E, afinal, como se torna uma coleta eficiente? Eu diria que com duas ferramentas básicas: pesquisas e educação.
Através de pesquisas de campo, pode-se traçar o perfil do lixo de uma cidade e criar estratégias de acordo com a realidade local.
Com a informação colhida, um governo público eficiente (seja municipal ou estadual) pode traçar um plano consistente e eficaz para que a agressão ao meio ambiente seja a menor possível. O fato é que tão-somente através de uma coleta seletiva dinâmica torna-se possível passar para o processo seguinte: a reciclagem.
Seja a reciclagem industrial, seja a reciclagem orgânica.
A título de exemplo, podemos enfatizar que em cidades litorâneas, por exemplo, o governo local pode incentivar que empresas recicladoras de alumínio sejam adventadas, pois, dessa forma, diminuiria exemplarmente custos altos com logísticas. De outro modo, em cidades pequenas, com uma população pobre e agrária, tendo o lixo um percentual maior de detritos alimentares, pode-se fazer a compostagem que é a “outra metade” da reciclagem.
O alto índice gravimétrico (porcentagem em massa) de matéria orgânica no lixo domiciliar brasileiro reflete ainda um perfil desperdiçador das populações urbana e rural. A compostagem aparece como uma técnica consagrada para uma correta destinação da “matéria orgânica”, forma de evitar a contaminação do meio ambiente. Muitas pessoas acreditam que um bom composto é difícil de ser feito, que exige grandes áreas para ser produzido ou que atrai animais indesejáveis. Todavia, se bem feito, nada disso é verdadeiro. Um composto pode ser produzido com pouco esforço e custos mínimos, trazendo grandes benefícios para o solo e as plantas. Mesmo em um pequeno quintal ou varanda é possível preparar o composto e, dessa forma, reduzir a produção de resíduos de uma cidade.
Ganha-se então de duas maneiras: diretamente com a produção do composto e indiretamente com a redução dos gastos com transporte e destinação final dos resíduos produzidos pela cidade.
Penso que se o governo federal distribuísse “semente e conhecimento” para a população, as famílias carentes poderiam plantar a sua própria horta em um “cantinho de seu próprio quintal” e um dos maiores problemas públicos atuais seria concomitantemente sanado: o cheirume tão comum dos grandes e pequenos centros. Com a diminuição de detritos alimentares esse cheirume seria gradualmente amenizado.
Dentro desse projeto, famílias inteiras poderiam fazer disso um meio de subsistência digna, pois caso não utilizassem o “adubo produzido”, poderiam vender para os bairros nobres de suas cidades para fortalecer jardins elitizados. O fato é que se existissem políticas públicas eficientes, visando especialmente a educação da população, colheríamos frutos inimagináveis como, por exemplo, uma população mais saudável. É simplesmente maravilhoso imaginar que com o adubo orgânico poderia se fazer muito mais por uma população carente que o que proporcionam alguns projetos governamentais: alimentar com dignidade!
ANGÉLICA DE OLIVEIRA RISSI é jornalista, empresária, especialista em História, MBA em Administração, executiva internacional pela Universidade de Ohio (EUA) e cursa MBA em Marketing na FGV de Ribeirão Preto.
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