Campinas registrou 2 óbitos de bebês por semana em 2023, é o que revelam os números de mortalidade infantil obtidos pela Secretaria de Saúde do município, divulgados na última semana. Foram 69 óbitos entre os meses de janeiro e agosto, período composto por 34 semanas. Os dados são fechados a cada quatro meses. Consequentemente, ainda não se sabe quantos óbitos foram registrados em setembro e nos primeiros dias de outubro.
De acordo com a coordenadora da Saúde da Criança e do Adolescente, Andréa Maria Lopes, a situação é inédita na cidade e preocupou as autoridades.
Os dados revelam que, somente no primeiro quadrimestre de 2023, foram 48 mortes de bebês, equivalente a 11,4 óbitos a cada mil nascidos-vivos. O número é superior à meta estabelecida pela Unicef (Fundo de Emergência Internacional para Crianças das Nações Unidas) para o Brasil até 2030, quando se espera que a taxa fique em, no máximo, cinco óbitos a cada mil nascidos vivos.
No segundo quadrimestre (maio a agosto), o índice apresentou redução, se fixando em 8,37 óbitos a cada mil nascidos vivos, patamar positivo por se aproximar da meta nacional e por estar abaixo de dois dígitos. Segundo a Saúde, o índice é o menor desde o primeiro quadrimestre de 2022, quando a média ficou em 7,97 óbitos a cada mil nascidos vivos, menor número já registrado.
Os dados aludem aos nascimentos registrados apenas no SUS (Sistema Único de Saúde). De acordo com a Fundação Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados), entre janeiro e julho - o mês de agosto ainda não foi informado -, 7.445 crianças nasceram nos hospitais públicos da cidade.
ALÍVIO
De acordo com a Secretaria da Saúde, a queda foi um alívio ao município. "Essa taxa de 11,4 foi muito ruim para nós. Nunca havíamos experimentado métrica e tivemos, por esse motivo, que analisar o que elevou este indicador", explica Andréa.
Com base nesta análise, diz a coordenadora, a pasta chegou ao que seria uma resposta, ao notar que praticamente 70% das mortes foram de bebês com até 28 dias de vida. Ou seja, que nasceram prematuros ou com alguma má-formação. Esse percentual, inclusive, é maior do que o sentido em períodos considerados aceitáveis.
Conforme Andréa, o número elevado de prematuros pressionou os leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) Neonatal e exigiu uma atenção maior na lida com o atendimento desses bebês.
"Quando a criança está inserida nesse diagnóstico, são feitas manobras de animação, ela é colocada em UTI Neonatal, são feitas, enfim, todas as ações para que ele sobreviva. A cidade tem capacidade pra isso, para atender essa demanda", diz Andréaa.
CRISE NA MATERNIDADE
A alta nos óbitos no início deste ano coincide com uma crise vivida pela Maternidade de Campinas. O hospital, localizado na Região Central, está em recuperação judicial e chegou a ser interditado pelo Devisa (Departamento de Vigilência em Saúde), por déficit de médicos que se aliou a um surto de gastroenterite, apontado como causa da morte de dois bebês.
A crise aconteceu em fevereiro deste ano. Na ocasião, 15 leitos pediátricos foram interditados. Com a falta de leitos, gestantes com risco de parto prematuro foram transferidas ao Hospital da PUC-Campinas e ao CAISM (Hospital da Mulher da Unicamp).
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Andréa, no entanto, avalia que os problemas enfrentados pela Maternidade não têm relação com a alta na mortalidade dos bebês. Segundo ela, o hospital conseguiu conter os efeitos para evitar mais mortes.
"A Maternidade é o nosso hospital onde nascem mais e morrem menos bebês. Ela enfrentou alguns problemas no início do ano, mas, dessas 48 mortes, apenas duas foram lá. Foram várias crianças infectadas, mas eles conseguiram segurar e ter tempo hábil para que elas sobrevivessem", afirma.
COMO REDUZIU?
O alerta despertado pelo índice alto no começo do ano pressionou a pasta por ações. Algumas iniciativas foram implantadas para frear a curva já no segundo quadrimestre. Entre elas, Andréa destaca o acompanhamento realizado nos primeiros sete dias do recém-nascido. Mais de 200 atendimentos do tipo aconteceram entre maio e agosto, o dobro em relação ao período anterior.
"Geralmente, tem algumas situações como cardiopatias congênitas que só vão aparecer depois do terceiro dia. Então muitas situações podem ser prevenidas com essa ação, e é algo que nos ajuda na combate a esse alto índice", pondera a coordenadora.
Outro trabalho é o da busca ativa as grávidas durante a gestação. Em todos os 67 centros de saúde de Campinas, profissionais foram orientados a se atentarem às ausências das mulheres nas consultas de pré-natal.
RECOMENDAÇÕES
A pediatra neonatologista Mariana Bertoldi Fonseca traça algumas recomendações para redução da mortalidade em Campinas. De acordo com a médica, uma melhor assistência durante o pré-natal é essencial. Algo que pode reduzir, por exemplo, a prematuridade.
"Estimular as famílias a realizarem planejamento da gestação, com consulta gestacional pré-concepção, para avaliar a saude do casal e orientar a suplementação vitamínica adequada se faz importante", explica. Outro ponto importante é evitar produtos químicos, substâncias ilícitas e álcool;
Já a partir do puerério, Mariana reforça a necessidade do aleitamento materno. Se realizado, ele pode reduzir "não só o risco de óbito no primeiro ano de vida, mas também a incidência de doenças agudas, como diarréia, e crônicas como asma e dermatite atópica. E até mesmo, diabetes, obesidade e síndrome metabólica na adolescência e idade adulta".
Por fim, principalmente até os dois anos, é imporante que os pais cumpram uma alimentação saudável, evitando alimentos ultraprocessados.