A memória começa a falhar, mas tenho convicção que em meados de 1996 estava para ir ao Guarujá quando, na espera para pegar a balsa em Santos, um vendedor ambulante nos aborda no veículo e, após ler a placa de Piracicaba, puxa papo dizendo que a cidade era conhecida pela caninha. “Ai, tatu ... tatuzinho ... me abre a garrafa e me dá um pouquinho”, entoa tal pessoa que carregava pencas de banana-ouro, aquelas pequeninas.
Uso este preâmbulo para ilustrar como Piracicaba ainda hoje é conhecida no “mundo exterior”, bem além de nossa província. Citei um caso de 30 anos atrás, mas recentemente um prestador de serviços de Araras me pediu uma “caninha de Piracicaba”. Ideia propagada em especial pela Caninha Tatuzinho, da família D’Abronzo, não negando a iniciativa dos Carmignani com a Cavalinho, e outras famílias que fizeram do destilado da cana de açúcar um aperitivo que levou o nome de Piracicaba para os quatro cantos deste Brasil.
Antes, nos anos 1980, era comum ver a Belina pelas ruas com a “pamonha, o puro creme do milho verde, pamonhas de Piracicaba!”. Achava isso surreal até ver outro dia, nas páginas da Folha de São Paulo, o (a) genial Laerte entoando o mote numa de suas tiras. Mais um ícone que foi exportado.
Cada época sua realidade. Ano passado participei de uma solenidade na Câmara de Vereadores de Piracicaba na qual foi homenageada a professora doutora Tsai Siu Mui, do Centro de Energia Nuclear/USP. No seu discurso de agradecimento ela comentou ter sido a primeira chinesa a cursar a USP. Até aí tudo bem. Curioso foi ouvir dizer que, quando estudante, ela foi Miss Peixe, uma tradição em voga na cidade nos anos 1950/60. Era o nosso título de Miss Universo!
Tudo isso para colocar num liquidificador e nele botar caninha, peixe, pamonha e de seu suprassumo tirar um extrato que cada cabeça interpretará do jeito que quiser. Haverá condenação, haverá contestação, bate-boca, assim como haverá quem diga “que bonitinho”. Pintado, onça parda, cobrona ou capivara ... A bola da vez é ela ... Conhecida por “Regina” ou perpetuada nos eventos como a “Mona”, a capivara é fruto de um imaginário coletivo internacional, propagado principalmente pelo “Made In China” que busca o Instagram, o Tik Tok, o Shein, o Shoppee e outros como seus representantes. A capivara é um representante internacional, como centenas de itens que vendem a rodo. É um animal de estimação com cães de gatos – pelo menos em parte da Ásia. Piracicaba se rendeu no início dos anos 2000 com seus “Os capivaras”, tira assinada por Erasmo Spadotto nas páginas deste Jornal de Piracicaba, despontando o animal que circulava pelo rio Piracicaba há séculos. Amigável ao ser humano, foi descrito como antas ou pacas nos registros do início do século 1800. Circulavam em especial na área em frente a Fábrica de Tecidos Santa Francisca de Luiz de Queiróz, embrião para as posteriores Artehusina e Boyes.
Opa! Mas, peralá! A capivara é o vetor da febre maculosa pois abriga o carrapato estrela. É visto como uma praga urbana! Mas quem veio antes? O ovo ou a galinha? Pronto! Debate aberto. Comente o que quiser na sua mídia social e pau na mula!
O certo é que o roedor é visto com muito carinho por muita gente. Traz simpatia por sua calma enquanto a onça parda mete medo na gente.
Capivara ou pintado? A decisão já foi tomada. É o animal “bola de vez”. Quem vai a Águas de São Pedro traz um imã de geladeira com um quati. Quem chega a Laranjal Paulista vê, numa das entradas uma estranhíssima laranja e na outra brinquedos gigantescos. Ser lembrado pelo passado de produção das laranjas ou pelo presente por uma área fabril que representa mais de 40 empresas produtores de plástico e brinquedos?
Modéstia a parte, e muitos saberão porque: prefiro uma estátua de quatro metros do Nhô Quim. E durma-se com um barulho desses ...