ARTIGO

Ainda: "que país é este?"

Por Cecílio Elias Netto |
| Tempo de leitura: 3 min

Se for, realmente, verdade ser, a esperança, “a última que morre”, este jornalista, quanto à política brasileira, nada mais tem a esperançar. Pois – de quanto se lembra – esperançou desde 1954, aos seus distantes 14 anos de idade, quando do suicídio do presidente Getúlio Vargas. Portanto, esperançou há mais de e por mais de 70 anos. E – venha a fazer um superficial balanço – impressiona-se a si mesmo com a aparentemente interminável sequência de escândalos. E de afrontas que minam este país “gigante pela própria natureza”. Por aqui, também, podemos dizer estar “tudo como d´antes no quartel de Abrantes”.  

Desde quando a voluptuosa Carmem Miranda encantou os estadunidenses com os seus requebros, balagandãs, cachos de bananas, a imagem de nosso país resumiu-se, por longo tempo, à terra do carnaval e do futebol. Como a confirmar esse lamentável equívoco, o surgimento de Pelé deslumbrou o mundo. Sua arte futebolística fez, à época, tanto pelo Brasil que o próprio Itamaraty o considerou nosso grande embaixador entre as nações. País da alegria, da descontração, do jeitinho, da carioquice nacional – mas subdesenvolvido. Ou em eterna busca pelo desenvolvimento.  

Houve um tempo – nos 1970 – quando um embaixador brasileiro na França pronunciou a frase que nos marcou por longas décadas: “O Brasil não é um país sério!” Disse-o em francês, língua diplomática: “Le Brésil n´est pas um pays serieux”. A frase foi, erroneamente, atribuída ao próprio Charles de Gaulle, presidente da França e herói mundial. Tivemos que amargar, ainda outra vez, a injustiça das imagens falsas, como se fôssemos, ainda e então, apenas o “país do futuro”, que nunca iria chegar. 

Ainda na década de 1970, o líder do então governo militar do Presidente Geisel, fez a pergunta que se tornou refrão célebre e banalizado. Foi quando o próprio Geisel – um governante realmente sério – tentou iniciar o que ele chamou de “abertura lenta, gradual e segura” para a democracia. A ditadura tinha sido cruel. Houve políticos inescrupulosos que dele discordaram, pois a tirania permitia-lhes sugar os sempre fertilíssimos úberes de privilégios e safadezas. O líder daquele governo, deputado Francelino Pereira, indignou-se com os oportunistas e perguntou: “Que país é este?” 

A pergunta espalhou-se pelo país e, alguns anos depois, o cantor e compositor Renato Russo inspirou-se naquela interrogação e lançou a música que se tornou quase hino nacional: “Que país é este?” Deram-se as mais diversificadas respostas e interpretações. Muitos outros, porém, não souberam responder ou explicar. E os recentíssimos – e quase inacreditáveis – acontecimentos em e de Brasília voltam a agredir a consciência nacional, desanimando e fraquejando os cidadãos de boa vontade de nossa nação. Que existem. E que são muitos. 

Quando o Supremo Tribunal de Justiça – o Supremo! – assume o nível de baixaria, de mediocridade e desrespeito como o de ministros que se denunciam pessoalmente, parece dar a resposta que não mais permite dúvidas: avacalhação do País. E, significativamente, ignoraram o povo. Este tem sido o país que eles e uma laia constroem para si mesmos. O Brasil e o povo brasileiro não merecem essa indignidade. Pois somos ignorados por eles. Repetem Maria Antonietta: “Que o povo coma brioches”.  

A pergunta dramática – “Que país é este?” – ameaça ter uma trágica resposta: a explosão popular, no cansaço alimentado pela indignação. E, mais do que tudo, a morte da esperança. Pois, quando não há mais o que esperançar, tudo é possível. De mal e de incontrolável. Oremus! 

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