ARTIGO

O exercício que o espelho não consegue mostrar

Por Rogério Cardoso |
| Tempo de leitura: 3 min

Você já acordou sem vontade de fazer absolutamente nada? O corpo parece pesado, a cabeça cheia e até colocar um tênis parece exigir uma energia que você não tem. Nessas horas, alguém dizer “vai treinar que passa” pode até irritar. Mas existe uma parte dessa frase que a ciência começou a entender melhor. 

Exercício parece assunto de músculo, coração e emagrecimento. Eu mesmo só falo sobre isso aqui na coluna.  Só que, enquanto você caminha, corre, dança ou faz musculação, pilates, alguma coisa também acontece dentro da cabeça. 

Um recente e grande estudo publicado em 2026 no British Journal of Sports Medicine, chamado “Effect of Exercise on Depression and Anxiety Symptoms: Systematic Umbrella Review With Meta-Meta-Analysis”, reuniu 81 metanálises, 1.079 estudos e nada menos que 79.551 pessoas. O resultado foi bastante claro: o exercício reduziu sintomas tanto de depressão quanto de ansiedade. 

E não existe apenas um exercício capaz de fazer isso. Caminhada, corrida, musculação, yoga, dança e outras formas de movimento apresentaram benefícios. O exercício aeróbico teve o maior efeito médio, mas talvez a parte mais interessante esteja nos detalhes. Por isso talvez tenham tantas pessoas correndo no mundo. 

Para sintomas depressivos, treinar em grupo apresentou efeito maior do que treinar sozinho. Atividades supervisionadas também tiveram resultados melhores que aquelas realizadas sem acompanhamento. Para ansiedade, os melhores resultados apareceram com exercícios mais leves e programas mais curtos e em grupo. 

Isso me fez pensar em algo que vejo há muitos anos trabalhando com pessoas no meu próprio estúdio que tenho no São Dimas. Existe diferença entre treinar no meio de gente e treinar com gente. 

Imagine duas pessoas indo para a academia fazer seu treino. Uma coloca o fone, regula o aparelho sozinho, treina e volta para casa. A outra chega a um lugar para treinar e alguém pergunta como ela está, outro percebe quando ela falta, existe conversa, risada e o compromisso de encontrar aquelas pessoas novamente na semana seguinte. As duas se exercitaram. Mas talvez apenas uma tenha levado para casa algo além do exercício. 

E isso importa principalmente porque a depressão pode retirar justamente aquilo que precisamos para começar: vontade e energia. Para uma pessoa deprimida, tomar banho, sair de casa ou colocar o tênis pode parecer uma montanha. Não é simplesmente preguiça. É por isso que dizer “quando tiver vontade, eu vou” pode ser uma armadilha. 

Às vezes, a vontade aparece depois.Primeiro vem o horário marcado. Depois o tênis. Depois a porta de casa. Depois dez minutos de caminhada. E talvez, quando você perceba, esteja conversando com alguém e respirando um pouco diferente. 

Mas calma. Isso não quer dizer que o exercício seja um remédio para tudo. Alguns dos estudos analisados eram melhores do que outros, e ainda temos muito para descobrir. E ninguém deve parar um medicamento ou outro tratamento porque começou a treinar. O exercício pode fazer parte do cuidado, não precisa ocupar o lugar de todo o resto. 

Mas ele nos ensina alguma coisa bonita.Durante muito tempo fomos à academia para mudar aquilo que enxergávamos no espelho. Talvez esteja na hora de perceber aquilo que o espelho nunca consegue mostrar.Você treina as pernas. Fortalece o coração. Cuida dos músculos. 

E, silenciosamente, pode estar ajudando também a cabeça a encontrar um caminho de volta. Até a próxima. 

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