ARTIGO

O que abunda não prejudica!

Por Walter Naime |
| Tempo de leitura: 3 min

Tem frase que parece ter nascido na cozinha de casa. “O que abunda não prejudica.” Diante de uma mesa farta, ninguém reclama de arroz sobrando. Mas, quando a abundância chega ao mundo da Justiça, é bom conferir se ela veio acompanhada de bom senso. Porque uma coisa é ter fundamento de sobra; outra é ter explicação de sobra para uma decisão que continua difícil de entender. 

Para o povo, falta é aquilo que aperta a vida: falta dinheiro, emprego, comida, saúde, oportunidade e até paciência. É procurar o necessário e descobrir que não tem. Excesso é o contrário: é quando passa da medida. É comida demais, remédio demais, exercício demais, conversa demais e explicação demais. A falta incomoda; o excesso também. Só muda o endereço do problema. 

Abundância, entretanto, não é vilã. Há coisas que quanto mais abundam, melhor. Conhecimento, solidariedade, honestidade, respeito, boas ideias, cultura e trabalho são algumas delas. Ninguém deveria reclamar de excesso de ética. Se alguém reclamar, talvez seja justamente porque está sobrando pouca. 

Mas existe uma velha regra popular que serve para quase tudo: “tudo o que é demais faz mal”. Riqueza em excesso, quando vira ostentação e poder sem freio, pode produzir desigualdade.  

Comida demais faz mal; exercício demais pode machucar; remédio demais pode adoecer. Até o cafezinho, companheiro inseparável do brasileiro, deixa de ser amigo quando vira sociedade anônima dentro do corpo. 

A vida parece tocar uma música chamada equilíbrio. Nem faltar ao ponto de comprometer, nem sobrar ao ponto de atrapalhar. E é nesse compasso que a Justiça deveria caminhar. 

Nos meios jurídicos, a ideia de que “o que abunda não prejudica” significa que um argumento ou fundamento adicional, quando pertinente, não deveria prejudicar a decisão. Até aí, tudo certo. O problema começa quando a abundância de palavras tenta esconder a falta de clareza. 

Mil páginas não transformam uma decisão injusta em justa. Cem explicações não consertam um critério errado. E uma decisão tão complicada que o cidadão precisa de outra decisão para entender a primeira talvez tenha explicado demais e esclarecido de menos. 

É aí que aparece o desencanto. A população já enfrenta problemas suficientes no cotidiano. Quando procura a Justiça, espera encontrar uma porta aberta para o direito, não um labirinto de palavras. Se encontra demora, decisões contraditórias, privilégios, conflitos de interesse, suspeitas de corrupção ou sensação de impunidade, a confiança vai embora pela porta dos fundos. 

E quando surgem casos de corrupção dentro de instituições que deveriam combater a corrupção, o golpe na credibilidade é ainda maior. É como descobrir que o fiscal da despensa anda levando o açúcar para casa. 

Mas seria injusto colocar toda a Justiça no mesmo saco. Há muitos profissionais sérios e comprometidos. O problema é institucional: quando poucos comprometem a confiança de muitos, a instituição inteira paga a conta. 

Como recuperar essa confiança? Com transparência, fiscalização efetiva, decisões compreensíveis, critérios claros, prazos razoáveis e responsabilização de quem ultrapassar os limites. E, principalmente, com independência para julgar sem medo de governo, partido, dinheiro, fama ou pressão das redes sociais. 

Talvez a velha frase possa servir de remédio para o momento: que abunde o que realmente faz bem. Que abundem ética, transparência, imparcialidade, respeito à lei e compromisso com o cidadão. 

Porque Justiça não precisa de excesso de discurso. Precisa de excesso de justiça. 
Essa é a moral da história: quando falta ética, sobra desconfiança. Quando sobra explicação e falta clareza, cresce a dúvida. E quando a confiança desaparece, nenhuma instituição consegue permanecer de pé apenas apoiada na autoridade. 

Que o Brasil, gigante pela própria natureza, encontre o caminho da prosperidade com justiça. Que lhe abundem trabalho, honestidade, equilíbrio e esperança, e que nunca falte ao cidadão aquilo que mais espera da Justiça: justiça. 

A crise moral prejudica!!    

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