ARTIGO

Si vis pacem para bellum

Por Armando Alexandre dos Santos |
| Tempo de leitura: 3 min

O uso da força, como ultima ratio para a defesa do bem e da ordem, é, por vezes, indispensável. Se os homens fossem perfeitos e não existissem males e injustiças (ou seja, se não tivesse havido um Pecado Original...), leis penais, cadeias, exércitos, armas ofensivas e defensivas seriam coisas desnecessárias. Mas, contrariamente ao que sonham utópicos pacifistas, os homens não são perfeitos, a injustiça e a desordem sempre se manifestam, o mal está sempre atuante e as forças do bem têm que se defender. Daí ser indispensável existirem mecanismos de coerção que imponham a ordem e impeçam as injustiças, na esfera privada, na pública e até mesmo na internacional.

O uso da força repressiva, defensiva e, conforme o caso, ofensiva é, pois, um mal necessário. Mas, para que esse uso não fosse arbitrário e tirânico, a civilização humana foi elaborando, pouco a pouco, uma espécie de código moral da guerra, de modo a ser delineado o perfil moral do verdadeiro militar - com seus valores, códigos de honra, noções de hierarquia, disciplina, companheirismo etc. Na Europa cristã, isso se passou de modo muito claro a partir de Santo Agostinho, o primeiro pensador que teorizou acerca da noção de guerra justa, sendo depois desenvolvido com a cavalaria medieval, as cruzadas, as ordens religiosas de cavalaria etc. No Japão antigo, também pode ser observado um bom exemplo desse aprimoramento com a instituição dos samurais, guerreiros que observavam o rigidíssimo código de honra do bushido.

Nas sociedades primitivas não havia exércitos. Todos os homens se defendiam, cada qual por si. Ser homem era, nesse sentido da palavra, ser guerreiro. Entre nossos indígenas, ainda há o costume de designar o homem adulto como guerreiro. Entendem eles, como entendiam os antigos, que ser homem significa ser guerreiro. E ser guerreiro, por sua vez, significa ser plenamente homem.

Nas sociedades em formação, ainda imperfeitas (uso aqui a expressão no seu sentido filosófico, ou seja, ainda não completamente formadas) também compete a todos os seus elementos válidos a defesa do coletivo. Era o caso, por exemplo, do Brasil nascente. Para incentivar o povoamento do Brasil, a Coroa portuguesa favorecia muito, do ponto de vista fiscal, o europeu que viesse se estabelecer aqui. Em outras palavras, no Brasil os impostos eram muito mais suaves do que em Portugal. Considerava-se que os que vinham para cá, pelos riscos que corriam e pelo benefício que causavam povoando a América Lusa, justificavam largamente uma redução significativa dos impostos. Isso, entretanto, tinha um preço: o colono português que vinha para o Brasil era obrigado a ter armas e a lutar em defesa do território sempre que fosse necessário. Era o preço que pagava o colono português para viver num local maravilhoso e cheio de possibilidades como o Brasil, pagando menos impostos que em Portugal.

Os portugueses que vinham para o Brasil (como também, analogamente, os espanhóis que vinham para as chamadas “Índias de Castela” e os colonos britânicos da América do Norte) tornavam-se assim, em alguma medida, como que assimilados aos nobres europeus. O nobre europeu não pagava imposto, mas era a única “classe” militar, com obrigação de lutar em

defesa do bem comum. O plebeu europeu pagava imposto, mas não era recrutável militarmente. O plebeu pagava imposto em dinheiro ou em prestação de serviços, enquanto que o nobre pagava o “imposto do sangue”.

Nas sociedades em formação, a atividade bélica era generalizada por toda a população. Já nas sociedades mais evoluídas, a tendência é que haja instituições definidas que se dediquem, estável e profissionalmente, a essa atividade. A existência de Forças Armadas sólidas e prestigiadas é, pois, indicativa de uma boa organização social, de sanidade moral de um povo, de maturidade política de uma nação.

Caso especial é o da Suíça, que pratica na perfeição o conselho latino expresso no título deste artigo, de que deve estar preparado para a guerra aquele que quer a paz. Em vez de manter exército forte, a Suíça prefere armar e treinar intensamente sua população civil, de modo a, se preciso for, mobilizar imediatamente o país todo. É o mais pacífico e o mais militarizado dos povos modernos.

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