A rotina de Tiago Gomes Pereira, 26 anos, começa antes mesmo do amanhecer. Todos os dias, por volta das 4h45, o despertador toca. Em silêncio, para não acordar os pais e os quatro irmãos com quem mora em uma chácara na zona rural de Pedregulho, ele se prepara para mais um dia de trabalho em uma fábrica de bolsas.
Responsável por chegar antes dos demais funcionários para ligar máquinas e organizar o início da produção, o jovem de 26 anos é visto pelos colegas como um profissional dedicado.
Desde o dia 21 de junho, porém, a rotina da família foi interrompida. Tiago desapareceu após sair de bicicleta em direção ao Parque Estadual Furnas do Bom Jesus, uma das maiores unidades de conservação ambiental do interior paulista. Mais de duas semanas de buscas mobilizaram bombeiros, Polícia Militar Ambiental, Defesa Civil, Guarda Civil Municipal, voluntários e equipes especializadas, mas o jovem ainda não foi localizado.
Para a mãe, entender quem é Tiago ajuda a afastar hipóteses levantadas desde o início do caso. "O Tiago é muito tranquilo, muito observador, muito família. Era um menino de paz, um menino bom."
Filho dedicado e muito ligado à família
Tiago mora com os pais e quatro irmãos em uma chácara localizada próxima ao Parque Estadual Furnas do Bom Jesus, cercada por propriedades rurais e plantações de café. Rosilene conta que a convivência sempre foi marcada por união e diálogo.
Segundo ela, o filho nunca deu sinais de envolvimento com drogas, bebidas ou qualquer outro tipo de vício. "Lá em casa ninguém fuma, ninguém tem vício de nada. Meu marido sempre procurou ser um bom exemplo para eles. A gente sempre conversou muito com todos os filhos."
A mãe também afirma que Tiago nunca apresentou comportamento agressivo ou impulsivo. "Ele não gostava de preocupar ninguém."
Até mesmo durante a madrugada, quando saía para trabalhar, fazia questão de não fazer barulho para que a família continuasse dormindo.
Responsável no trabalho
Embora Rosilene não saiba definir exatamente o cargo exercido pelo filho na fábrica de bolsas, ela afirma que Tiago havia conquistado a confiança dos superiores.
Além de abrir a empresa diariamente, ele auxiliava diretamente na organização da produção, transportava serviços entre cidades como Franca e Sacramento (MG) e dividia responsabilidades administrativas com a chefia.
Após seu desaparecimento, colegas relataram à família a importância que ele tinha na empresa. "As meninas falaram que tiveram que colocar quatro pessoas no lugar dele para fazer o que ele fazia."
Segundo a mãe, o reconhecimento vinha da dedicação do filho. "Ele era muito organizado. Onde ele entrava para participar de alguma coisa, fazia da melhor forma possível."
Sonho era trabalhar com o meio ambiente
Tiago planejava construir carreira na área ambiental. Ele fazia um curso técnico ambiental em uma instituição particular e havia interrompido temporariamente a graduação em Biologia para concluir essa formação, antes de retomar o ensino superior na Unifran, em Franca.
A paixão pela natureza ultrapassava os estudos. Nos fins de semana, participava de ações voluntárias em unidades de conservação da região.
Segundo a mãe, ele havia ingressado recentemente em um grupo de voluntários que atuava em parques estaduais. "A aventura dele era proteger a natureza." Como reconhecimento pelo trabalho, servidores do parque chegaram a doar mudas de ipês para que ele cultivasse antes do replantio.
Na propriedade da família, seis mudas permanecem sendo cuidadas. "Ele queria levar para a mata para repor onde tinha poucas árvores."
'Meu descanso é no parque'
Enquanto muitos aproveitavam os finais de semana para descansar em casa, Tiago fazia justamente o contrário.
No sábado, costumava participar das atividades voluntárias em Franca. No domingo, seguia para o Parque Estadual Furnas do Bom Jesus.
A frequência era tanta que Rosilene passou a questionar o filho. "Eu falei: 'Thiago, por que você não vai descansar?'" A resposta ficou marcada na memória da mãe. "Ele respondeu: 'Ai mãe, meu descanso é no parque. Eu gosto de estar lá.'"
Segundo ela, o filho conhecia bem a região. "Ele foi muitas vezes. Não era um ambiente desconhecido."
Não era aventureiro
Uma das hipóteses levantadas desde o desaparecimento era a de que Tiago teria assumido riscos durante uma trilha.
A mãe, no entanto, rejeita essa imagem. Ela afirma que o filho gostava de conhecer novas áreas da natureza, mas sempre de maneira responsável.
"Ele não era aventureiro, não."
Segundo Rosilene, a curiosidade do filho estava ligada ao aprendizado ambiental. "A aventura dele era conhecer, proteger a natureza."
Ela lembra que, na manhã do desaparecimento, Tiago havia visitado uma cachoeira dentro do parque. Durante o retorno para casa, comentou que tinha vontade de conhecer a parte inferior da queda d'água em outra oportunidade. "Ele falou que não seria naquele dia, porque ficava muito longe da nossa casa."
O último domingo
Na manhã de 21 de junho, mãe e filho foram juntos até Pedregulho. Enquanto Rosilene resolveu assuntos pessoais no centro da cidade, Tiago visitou o parque. Perto das 11h, eles voltaram para casa, passaram no supermercado e seguiram para a chácara. Enquanto a mãe preparava o almoço, percebeu que o filho organizava alguns pertences.
Perguntou para onde ele iria. "Eu falei: 'Você não vai esperar o almoço?'" Segundo ela, Tiago respondeu: "'Vou no parque, vou dar uma volta.'"
Rosilene insistiu para que ele esperasse a refeição. "Ele falou: 'Não, vou levar dois pães.'". Foi a última conversa entre os dois.
O parque onde Tiago desapareceu
Criado para preservar um dos mais importantes remanescentes de Mata Atlântica e Cerrado do nordeste paulista, o Parque Estadual Furnas do Bom Jesus possui milhares de hectares de vegetação nativa, trilhas, cachoeiras, paredões rochosos e áreas de difícil acesso.
A unidade de conservação abriga grande diversidade de fauna e flora, além de desníveis acentuados, vales, cursos d'água e trechos de mata fechada.
Frequentado por pesquisadores, estudantes e praticantes de ecoturismo, o parque também recebe voluntários que atuam em projetos de educação ambiental e recuperação da vegetação - atividade da qual Tiago faz parte.
Para a família, justamente por conhecer bem o local, o desaparecimento permanece sem explicação.
Rosilene acredita que o filho jamais deixaria de dar notícias voluntariamente. "Ele é muito apegado à família. Ele sabe o tanto que eu preocupo. Ele não faria isso comigo."
Mesmo com o passar dos dias, a esperança da família permanece. Mas a rotina silenciosa da madrugada, quando Tiago saía para trabalhar sem acordar ninguém, deu lugar ao vazio deixado por um jovem que transformava seus fins de semana em uma missão de cuidar da natureza e que, desde aquele domingo de junho, nunca mais voltou para casa.
Cronologia do caso
21 de junho (domingo)
- Tiago vai ao Parque Estadual Furnas do Bom Jesus pela manhã.
- Retorna para casa perto das 11h.
- Após o almoço ser preparado, sai novamente de bicicleta em direção ao parque.
- Não volta para casa.
Dias seguintes
- Familiares iniciam buscas.
- Corpo de Bombeiros, Polícia Militar Ambiental, Defesa Civil e voluntários participam da procura no dia 22 de junho
- Bicicleta é localizada nas proximidades do parque no dia 27 de junho
- Buscas são suspensas no dia 29 de julho
- Polícia faz diligências para ouvir testemunhar, familiares. Delegado pede retomada das buscas em cachoeira específica
- Corpo de Bombeiros retomam buscas no dia 3 de julho e encerram no mesmo dia após não achar o jovem.
Após o encerramento das buscas
- O caso segue em investigação da DIG (Delegacia de Investigações Gerais) de Franca, sob o comando do delegado Márcio Murari.
Comentários
1 Comentários
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ira 3 dias atrássem comentario, so esperança de que ele esteja bem,em algum lugar,