Dedicamos nosso último artigo à inveja, reconhecidamente o mais oculto, dissimulado, vergonhoso e destrutivo dos vícios. Cabe agora aprofundarmos um pouco mais o conceito de inveja e, ao mesmo tempo traçar o que se pode designar como a psicologia da inveja, ou a psicologia do invejoso.
A inveja consiste na deformação de um sentimento que, na sua origem, é de si legítimo: o verdadeiro amor de cada qual por si mesmo. Esse sentimento legítimo está na origem de toda forma de progresso e aprimoramento humano. Mas, quando exacerbado e envenenado pelo amor próprio, transforma-se em algo perigoso.
O invejoso geralmente inveja alguém do seu meio familiar ou social, alguém de igual condição parecida com a sua e que pode por isso mesmo considerar como um rival ou competidor. Só muito raramente o invejado é pessoa distante ou colocada na escala humana em posição muito superior à do invejoso. Tal característica já foi notada na Grécia Antiga por Aristóteles na sua obra Retórica das Paixões.
A inveja é um vício muito generalizado, que qualquer pessoa vê facilmente nos outros, mas que é extremamente difícil reconhecer em si mesma. Embora onipresente e facilmente notada, a inveja é secreta, inconfessável e profundamente vergonhosa. Nem para si próprio, no íntimo da sua consciência, o invejoso admite sê-lo.
Ela é profundamente relacionada com a tristeza, nutre-se da amargura e da frustração e, por sua vez, é causa de maior amargura e frustração. O objeto direto do invejoso é algo que ele vê em outra pessoa, e que desejaria muito possuir, mas sabe que não pode. O objeto indireto do invejoso é a outra pessoa, possuidora da coisa ou da condição invejada, pessoa essa que se lhe afigura como a única causa da sua carência. Note-se, nesse particular, uma curiosa reversibilidade: objeto direto e indireto se alternam no foco de atenção do invejoso. A pessoa invejada acaba se tornando o foco direto da atenção e do ódio do invejoso. A transmutação da inveja para o ódio e a relação de reversibilidade e mútua realimentação que têm essas duas paixões foi objeto de uma pequena obra moral escrita por Plutarco (46-120): De invidia et odio.
A inveja é dolorosa, porque vem sempre acompanhada de uma sensação extremamente cruel de inferioridade, de insuficiência irremediável. Ao invés de procurar superar essas carências desenvolvendo outros campos em que poderia perfeitamente realizar-se, o invejoso assume uma posição autopunitiva lancinante. Nem os mais cruéis tiranos conseguem excogitar um tormento pior que o da inveja, como escreveu Horácio: “O invejoso se consome nos fartos bens alheios; pena maior não criaram os tiranos sículos do que a inveja”.
Um grande moralista espanhol do século XX afirmou o mesmo com outras palavras: “A pessoa invejosa leva em seu coração um verme que a rói, um veneno que a consome lentamente e em segredo. O invejoso é seu próprio carrasco; seu vício o torne triste e melancólico, arranca-lhe lágrimas e o leva até ao desespero” (ROYO MARÍN OP, Antonio. Teología de la Caridad. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1963, p. 565).
Como o invejoso aplica todas as suas energias no afã de prejudicar a pessoa invejada, não as aplica para desenvolver o próprio talento. Com isso, condena-se irremediavelmente à esterilidade e à mediocridade que, num trágico “ritornello”, alimenta ainda mais a inveja.
A inveja é permanente. Nisso se diferencia de outras paixões, que atuam de modo intermitente. A inveja, além de torturar, tortura de modo contínuo e sem alívio. Ela é, ademais, ou pelo menos tende a ser obsessiva. Passa a ser o único foco de atenção do invejoso, que se esquece de outras coisas mais importantes e úteis para si próprio e passa a girar em torno daquele pensamento obsessivo e norteador de todos os seus atos. Em consequência, passa a direcioná-los com vistas a desejar e, sempre que possível, atrair males sobre a pessoa invejada. Quando consegue algum pequeno sucesso, sente uma forma de alegria, mas esta é ilusória e apenas alimenta ainda mais aquele sentimento torturante. Essa alternância de prazer e dor confere, à inveja, um caráter que tem analogia com o sadomasoquismo.