ARTIGO

O mais oculto, dissimulado e vergonhoso dos vícios

Por Armando Alexandre dos Santos |
| Tempo de leitura: 3 min

Denomina-se inveja o sentimento malévolo de tristeza pelo bem alheio, sentimento esse que atormenta e mortifica o invejoso, levando-o a ações censuráveis para privar o possuidor de seu bem. A inveja desde os mais remotos tempos exerce grande papel na História humana. Encontram-se traços dela em todas as épocas, na história de todos os povos. A inveja é muito comum, tão disseminada que absolutamente todas as pessoas já a notaram... nos outros! Mas ninguém reconhece em si próprio a inveja, o mais oculto, dissimulado e vergonhoso dos vícios.

A palavra inveja provém do latim invidia, substantivo derivado do verbo invideo (invidere, no infinitivo), ao pé da letra, “ver em”. Note-se, entretanto, que esse prefixo latino in não deve ser traduzido pela preposição em, mas pela preposição contra, ou pela locução prepositiva em oposição a. Invidere significa “ver ao contrário”, “ver de má vontade”, “ver de modo mau” ou, mais livremente, “ver de maus olhos”, projetando sobre o outro um olhar malicioso que distorce a realidade. Sendo o latim uma língua bastante sintética, seus vocábulos frequentemente eram usados em acepções variadas, inteligíveis pelo respectivo contexto.  Isso explica que nem sempre o vocábulo latino invidia deva ser traduzido por inveja, podendo, conforme o caso, sê-lo por emulação, ciúmes, desejo intenso, competição, concorrência, disputa, rivalidade etc.

Do latim invidia provieram vocábulos cognatos nos idiomas neolatinos: no português, inveja (ou enveja, forma arcaica), no catalão enveja, no castelhano envidia (ou invidia, mais usada em algumas regiões da Espanha), no francês envie, no italiano invidia. No inglês, usa-se a palavra cognata envy, assimilada pelo idioma britânico por influência franco-normanda. No alemão, usa-se o substantivo Neid, de raiz não latina. Em todos esses idiomas, com ligeiras variantes, o sentido do termo é o mesmo, e significa a tristeza mórbida pelo bem alheio.

Desde que existe o ser humano, existe a inveja. Numa ótica religiosa, a inveja é até mesmo anterior à história humana. Por ser uma paixão de natureza intelectiva, pode ser vivida e praticada por puros espíritos, sem a necessidade de intermediação dos sentidos. Assim, já antes da Criação da Humanidade podia haver inveja entre os espíritos angélicos, e foi por inveja que Lúcifer se revoltou contra Deus (Is 14, 12-15).

 A inveja do diabo em relação à obra de Deus também esteve na origem do Pecado Original, tal como afirma textualmente o Livro da Sabedoria: “Deus criou o homem imortal, e o fez à sua imagem e semelhança. Mas, por inveja do demônio, entrou no mundo a morte; e experimentam-na os que são do partido dele” (Sb 2,23-25).  O modo como a serpente tentou Eva, de acordo com o Gênesis, foi precisamente despertando nela um sentimento de inveja em relação a Deus, pois lhe assegurou que, se comesse do fruto proibido, ela e Adão seriam “como deuses” (Gn 3,5). Consumado o Pecado Original e exilado primeiro casal para a terra, desde logo manifestou-se a inveja. Foi um sentimento de inveja que esteve na raiz do primeiro crime de morte, de Caim contra seu irmão Abel (Gn 4,1-16). E, a partir daí, a inveja sempre exerceu seu papel ao longo dos tempos, em todas as sociedades humanas.

“Na história política das nações vislumbra-se, a cada passo, a ação da inveja, quer declarada, quer subterrânea e inconfessada. Mesmo quando na base dos acontecimentos não existe a inveja, esta aparece, quase sempre, a agravar as rivalidades, a excitar os ódios, a provocar ou prolongar as guerras” - escreveu o educador português Mário Gonçalves Viana (1900-1977) no seu excelente livro  A Psicologia da Inveja (Porto: Editorial Domingos Barreira, s/d, p. 132).

Ser visado e vitimado pelos invejosos é sina que persegue implacavelmente quem tem sucesso, em qualquer área de atividades. Enquanto for vivo, o vencedor sempre terá que levar consigo a incômoda companhia dos invejosos. Assim já o registrou Horácio (65-8 a.C.), em carta a seu amigo Augusto, falando de Hércules: “Quem venceu a hidra terrível e em esforço fatal submeteu monstros célebres, notou que só se vence a inveja finda a vida” (Epistula ad Augustum, 2,1 11-12).

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