Parece que, quanto mais avançamos nas tecnologias, mais dificuldades temos de nos relacionarmos presencialmente de forma espontânea, autêntica e prazerosa. No que diz respeito às relações sexuais, as dificuldades se apresentam mais frequentes ainda a cada dia, haja visto o aumento de disfunções sexuais de fundo emocional, masculinas e femininas, que aparecem em nosso consultório. Lembrando que o sexo é apenas uma das áreas da sexualidade humana transcrevo uma aula do saudoso mestre, amigo e educador sexual, dr. Nelson Vitiello.
“Embora ainda encontrando fortes resistências, a ideia de que deveríamos instituir educação sexual vai se tornando mais aceitável. Nessa área, mesmo que indo de encontro a posições mais repressoras, até a educação sexual para pessoas portadoras de necessidades especiais vai se tornando uma necessidade visível.
No entanto. devemos deixar as coisas um pouco mais claras. Quando se fala em educação sexual para portadores de necessidades especiais, na realidade não se está falando de uma educação sexual diferente. com conceitos e preceitos outros, mas sim de métodos adaptados a essas pessoas.
Explicando melhor: os objetivos de qualquer processo educacional devem ser claramente identificáveis, isto é, devemos deixar aparente o que buscamos com esse processo. Em outras palavras, educar para que? No caso da educação sexual, em nossa maneira de entender devemos ter como ideologia a busca da felicidade. As pessoas devem ser educadas para serem felizes!
A experiência tem mostrado que outros esquemas, baseados em ideologias mais restritas, não dão os resultados esperáveis, ou ao menos não os dão na proporção esperável para o esforço dispendido. Assim, programas de educação sexual focados apenas numa ideologia de evitar gestações indesejáveis ou infecções sexualmente transmissíveis, não apresentam resultados animadores. A proposta que se defende, denominada de proposta holística, é que as pessoas sejam educadas para serem felizes e para que propiciem aos outros a mesma felicidade. Na esteira dessa busca. naturalmente, virá a necessidade de fugir de uma gestação não planejada e/ou indesejada, bem como a clara necessidade de fugir de infecções sexualmente transmissíveis, tendo em vista o potencial infeliz dessas situações.
Os conceitos e a mensagem implícita nesse processo, são bastante amplos, baseando-se principalmente numa evitação de posturas preconceituosas, numa visão mais ampla do que é a sexualidade, numa descontração da sobrevalorização do orgasmo e da genitalidade como fontes exclusivas de experiencias prazerosas. Em poucas palavras, a mensagem implícita num processo coerente de educação sexual é basicamente uma visão positiva da sexualidade, que deve ser entendida como um dom que as pessoas têm, e não como uma coisa suja, errada proibida ou pecaminosa.
Sendo a ideologia mesma, tanto nos processos educacionais para os portadores de necessidades especiais quanto para os não portadores, o que deve diferir é na realidade apenas a metodologia educacional, que precisa ser adaptada para o caso de cada necessidade (deficiência) em particular. Mas devemos ter sempre bem claro que a mensagem e a visão da sexualidade a ser passada no processo é a mesma. Vale dizer que, ao menos tão importante quanto os programas de educação sexual para portadores de necessidades especiais (físicas ou mentais), é o processo de educação para os não portadores, que devem ser orientados no sentido de deixarem de lado seus preconceitos e sua visão restrita do ser humano, sob a qual enxergam-no apenas sob um angulo especial, o da deficiência”.