ARTIGO

O mundo qual canção, paisagem

Por Cecílio Elias Netto |
| Tempo de leitura: 3 min

E ele haverá, sempre, de insistir: ou se entende a vida como bênção ou como castigo, penitência. Ora, por que casais, amando-se, anseiam por filhos, querem-nos?? Para vê-los alegres, satisfeitos, encantados por terem nascido? Ou para mergulhar em sofrimentos e em dores? Enganamo-nos, talvez, em admitir haja – apenas e antes de mais nada – o instinto de sobrevivência da espécie. Há-o, realmente. Mas – por que não? – aquele prioritário desejo envolvente, intenso, de produzir a própria “cria”? Para amá-la, burilando-a mais até do que a uma joia rara?

No entanto, cada um é cada um. Há quem goste da escuridão; outros, da claridade. Alguns chegam a alimentar o próprio sofrimento; outros buscam vencê-lo. Os mais sábios, porém, desse sofrer extraem forças, ensinamentos. Se, realmente, assim o fôssemos, viríamos a mais sentir do que a pensar. E teríamos, então – conforme Fernando Pessoa já o vivenciara – “o olhar nítido como um girassol”. Pois – ainda como ele concluíra – “o mundo não foi feito para pensar. Pensar é estar doente dos olhos.” E seu entendimento conclusivo: “Eu não tenho filosofia: tenho sentidos.”

No núcleo das coisas, artistas traduzem em poesia o que qualquer um da população entende com o coração: “De tanto pensar, morreu burro.” E a burrice acumula-se pouco a pouco, num processo. As pessoas – nesse sistema quase que essencialmente utilitarista – são consideradas por aquilo a que podem servir. Se não estiverem “a serviço”, pouco interessam. Vai daí, a máquina já está promovida a nível superior ao humano. O robô tornou-se o “operário” mais considerado. Pois, não tem salário, nem férias ou bonificações trabalhistas. E ainda melhormente: não protesta e não reivindica.

Os cinco sentidos humanos não nos deveriam ser considerados apenas pela utilidade. Foram-nos dados – também ou especialmente – para sentir. Aspirar o perfume das coisas, ouvir melodias compostas pela natureza, saborear beijos humanos e os frutos da terra; ver, olhar, contemplar a suprema e inimitável arte do mundo; tatear, acariciar, apalpar a carne humana, da criança amada, da pessoa querida.

Mais, muito mais do que competição e luta, viver é solidariedade. Luta-se na carência ou por apetites. Guerreia-se pela posse, por direitos. Ama-se, fraterniza-se, no entanto, pelo instinto de humanidade. Pois, o animal racional pensa e age também a partir do coração. O humano que odeia é o mesmo que ama. O que divide pode ser, igualmente, o que reparte. Dia chegará em que, por fim, haveremos de entender e de aceitar a dimensão inexprimível dos sentimentos humanos. Então, deixaremos, tão tolamente, de tentar sufocá-los. E não mais repetiremos a ilógica indagação, ainda que literária, atribuída a Oscar Wilde: “A arte imita a vida ou a vida imita a arte?” Pois, muito antes – desde os sábios gregos – a razão aristotélica havia concluído: “A arte imita a Vida”. Tentando imitar, o ser humano fez-se artista.

Logo, tendo, apenas, “olhos de ver, ouvidos de ouvir”, ouviremos a eterna canção da natureza: na brisa que afaga os cabelos das árvores; no som das águas, caindo de cascatas e desmaiando nas praias; no pipilar de passarinhos; na fúria dos vulcões, de trovoadas e tempestades rufando quais tambores. E, se os olhos virem, contemplaremos pores de Sol, amanheceres, nuvens brincando nos espaços, árvores que se pintam de mil-coloridas flores, sorrisos, peraltices de crianças, cândidos olhares dos apaixonados. O Mundo, o Universo são obra de um artista inimitável, seu criador. Neles, há canção, paisagem. No entanto…

Comentários

Comentários