ARTIGO

O retorno dos regionalismos

Por Armando Alexandre dos Santos |
| Tempo de leitura: 3 min

Os grandes Estados nacionais são uma realidade relativamente nova no panorama mundial. A unidade política da Espanha data de 1492; a da Grã-Bretanha, de 1603, quando Jaime VI da Escócia também se tornou Jaime I da Inglaterra; a da França, foi-se constituindo pouco a pouco ao longo dos séculos XV a XVII; a Alemanha, ainda em 1800 era constituída por uma colcha de retalhos de mais de 300 soberanias e semi-soberanias; a unificação da Itália somente em 1870 se concretizou.

Um dos mecanismos aglutinadores dos novos estados foi o combate às tradições culturais de tipo regionalista. Na Escócia, por exemplo, foram proscritos os kilts (os tradicionais saiotes masculimos, confeccionados com os tartans dos vários clãs) e as gaitas-de-fole, sendo também proibido o idioma gaélico, por determinação dos monarcas da dinastia alemã de Hanover, que havia despojado do trono a dinastia legítima dos Stuart. A proibição não "pegou", e depois de algumas décadas os velhos costumes voltaram a ser livremente praticados, e o são até hoje.

Na Espanha, procurou-se impingir a superioridade de Castela sobre os antigos reinos de Leão, Navarra e Aragão, sobre a Catalunha, as Vascongadas etc. O idioma de Castela foi, por ato do General Franco, transformado no oficial “espanhol” - o que não corresponde à realidade dos fatos, já que na Espanha são faladas pelo menos três outras línguas (o catalão, o basco e o galego) e um número indefinido de dialetos (o bable, o santanderino, o andaluz, o valenciano etc.).

Na Itália, os dialetos locais, que constituíam uma das riquezas culturais dos antigos tempos, sofreram também boicote e perseguição, na tentativa de ser imposto o italiano perfeito ("língua toscana em boca romana"). Na Alemanha, Hitler tomou medidas ditatoriais visando a proteger o idioma puro e unificado do velho alemão, sem as misturas indesejáveis, análogas às impurezas raciais, que desejava exterminar do mundo germânico. E assim por diante.

Os Estados tornaram-se unos, grandes e onipotentes, e os indivíduos foram se tornando cada vez mais indefesos diante do moloc estatal. As famílias, as municipalidades, os organismos intermediários da sociedade, foram definhando diante do estado.

Nos últimos tempos, esse processo de fortalecimento das nacionalidades, verificado tão prolongadamente durante séculos, parece estar mudando de direção. A tendência atual é para que os estados nacionais se insiram em blocos econômicos e/ou políticos supranacionais; e, paralelamente, para que dentro dos estados nacionais se revalorize o papel das regiões.

O fato é que assistimos, nos últimos anos do século XX e no início do atual, a acontecimentos de enorme importância, que parecem significar uma espécie de gigantesco toque de gongo, sinalizando uma profundíssima mudança na História.

Assistimos a coisas que, para um homem da minha geração (tenho 71 anos) pareciam impossíveis. Assistimos à desintegração da União Soviética e ao aparecimento de numerosas novas nações. Assistimos ao renascer dos regionalismos em muitos povos: na Grã-Bretanha, fala-se abertamente da independência da Escócia, do País de Gales e da Irlanda. Seria a desagregação de um dos símbolos mais marcantes dos Tempos Modernos, a todo-poderosa Inglaterra. Na Escócia, como contestação ao domínio britânico, é comum em atos públicos ser tocado o tradicional hino "The Flower of Scotland", em lugar do hino inglês. O gaélico volta a ser falado, e um dos negócios mais lucrativos da internet é o comércio de tecidos, joias, kilts, gravatas e outros apetrechos dos velhos e tradicionais clãs escoceses.

Na Espanha, assiste-se a análogo fenômeno. Hoje o catalão, o basco e o galego são livremente ensinados nas escolas, a par do "espanhol". Na Bélgica, fala-se abertamente de secessão, dividindo-se o país entre as duas etnias que o compõem, flamengos e valões. No Canadá, é cada vez mais acentuada a tendência a uma separação entre franco e anglo-canadenses.

Que surpresas nos reserva o futuro, nas próximas décadas? Como dizem os franceses, "qui vivra, verra."

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