ARTIGO

Reconhecendo nossa identidade

Por André Salum |
| Tempo de leitura: 3 min

Ao sermos questionados quanto à nossa identidade, habitualmente fazemos menção aos papéis que desempenhamos no mundo de relações. Nome, família, estado civil, profissão, nacionalidade, religião – essas e outras referências dizem respeito ao que fazemos e, apesar de obviamente necessárias e úteis, não revelam quem ou o que somos nós.

Do mesmo modo, se a vida flui em permanente mutação, nossa existência se transforma incessantemente. Sob a perspectiva do desenvolvimento biológico, por exemplo, somos embriões, depois fetos, recém-nascidos, crianças, jovens, adultos, idosos e, por fim, cadáveres. A cada etapa de nossa vida expressamos características sempre mutáveis.

Nessa representação de papéis, quanto mais nos identificamos com aspectos externos e superficiais do nosso ser, ou seja, com nosso ego, mais nos cristalizamos, impedindo o livre fluir da energia vital em nós, privando-nos de reconhecer o que somos: a consciência que transitoriamente se expressa com uma personalidade, habita um corpo físico e age na dimensão material.

Esse fenômeno faz com que nos identifiquemos a tal ponto com os personagens que representamos no palco da vida que nos confundimos com eles. Nesse estado tendemos a agir por condicionamentos, impulsos automatizados, identificação gregária negativa e por sugestões que podem nos tornar reféns ou autores de atos destrutivos.

Quando esse processo se exacerba, seja na identificação com um time esportivo, um partido político, uma ideologia ou uma religião, ocorre a distorção das percepções e a degradação das relações com os demais, gerando e alimentando intolerância, fanatismo e conflitos, como temos observado na vida cotidiana.

O autoconhecimento, essencial para a transformação rumo à plenitude existencial, requer a desidentificação do ego, permitindo focar a consciência nos aspectos mais profundos do ser, de onde provêm os impulsos necessários a um novo modo de ser e de viver. Segundo aqueles que percorreram essa jornada e compartilharam suas experiências e descobertas, a dimensão espiritual, que constitui a natureza essencial de todos os seres, é infinitamente rica e bela, fonte de inesgotáveis recursos a um viver harmonioso. Afirmam todos eles ser possível estabelecer contato consciente e permanente com essa realidade, enquanto vivendo e agindo no mundo exterior. Ensinam esses sábios, pertencentes às mais diversas religiões, que a comunhão consciente com a Fonte, a partir da essência que somos, é capaz de promover pacificação, harmonia e cura até nos níveis externos de nossa vida. Além disso, ao realizarmos essa conexão haurimos forças para o enfrentamento dos inevitáveis desafios existenciais, bem como para a superação dos obstáculos que fazem parte da jornada.

Ensinamentos genuinamente espirituais fornecem preciosos elementos para aqueles que aspiram a uma vida mais plena, livre e feliz, afirmando ser a superação da identificação com o ego uma etapa imprescindível no caminho de auto-realização. Tais instruções, vinculadas ou não a religiões formais, favorecem o despertar da consciência espiritual, a fim de que possamos, a partir do reconhecimento do que somos, agir de modo construtivo e educador, curativo e libertador.

Quem se reconhece, portanto, como a consciência em breve estágio no plano material, obedecendo a propósitos evolutivos, pode estar no mundo sem ser do mundo, agindo como colaborador efetivo para uma sociedade mais fraterna, saudável e pacífica.

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