Se os poderes municipais não querem, não podem ou não conseguem entender, o grande problema continua sendo nosso, da população. Não há mais respostas ou soluções prontas. Logo, urgentemente faz-se buscá-las. E que se não aceitem falsos argumentos, como os de hipotéticos catastrofismos ou de pânico imaginário. A catástrofe já dá sinais e até o pânico se justifica. São transformações até aqui caóticas envolvendo não apenas a natureza, mas – também ou especialmente – a ação humana.
A genialidade de Goethe advertiu-nos com a criação do Doutor Fausto, o que usava da magia e da busca no sobrenatural para saciar sua fome de conhecimento. E Mary Shelley – também genialmente – revelou-nos o Frankenstein, enlouquecido para alcançar, através da ciência, os segredos e mistérios da criação. Não há como ignorar Fausto e Frankenstein estejam revividos em nossa era pelo que temos considerado “fantásticas e notáveis conquistas científicas e tecnológicas”. Já chegamos a nos aproximar do próprio Sol. Estamos prestes a povoar a Lua. E ambicionamos chegar a Marte. Para quê, mesmo? E por quê?
Ora, respondem, eles, a cada conquista: “Mais um passo para o bem da humanidade.” A quê, porém, eles se referem? A quantos? Talvez, seja o que menos tem importado aos que já – quase sempre financiando-as – detêm o domínio das admiráveis realizações tecno-científicas. Tem sido sempre “mais um passo para abarrotar os cofres dos poderosos”, além dos reconhecidos e formidáveis serviços prestados àquele mínimo da humanidade com condições de usufruí-los. Desde que aconteceu a grande vitória do agora claudicante neoliberalismo, as diferenças tornaram-se brutais.
Uma das últimas resoluções da Oxfam (Oxford Committee for Famine Relief, Comitê de Oxford para o Alívio da Fome) revelou uma realidade revoltante, diferenças ainda mais acentuadas entre os povos. Vejamos: I - O topo (1% mais rico): detém cerca de 45% de todas as riquezas do globo. 2 - A elite do topo (10% mais ricos): concentra aproximadamente 75% da riqueza global. 3 - A metade mais pobre (50% da base): fica com uma fatia de apenas 0,6% a 2% da riqueza pessoal total da humanidade.
Estudos também apontam lastimável diferença quanto à territorialidade: cerca de 69% de toda a riqueza do planeta encontra-se concentrada no chamado "Norte Global". E este reúne as nações mais desenvolvidas e uma população que equivale a apenas 20% do total de habitantes da Terra. Trata-se do antigamente conhecido como Primeiro Mundo, sendo, o “Sul Global”, os havidos como Terceiro Mundo. Logo, 80% da humanidade estão, ainda, em luta – muitas vezes desesperadora – para conseguir um simples lugarzinho “ao Sol”.
Já se revelam, no entanto, evidentes sinais de questionamento dessa realidade sócio-econômica – e política! – idealizada, em especial, pelos chamados “Chicago Boys”. Os próprios e ainda vigorantes conceitos de democracia já clamam por alterações. A China deixou de ser – como ocorria há pouco tempo – uma expectativa quase desacreditada. Tornou-se referência. Nela, o tão desprestigiado, pelo Ocidente, “Estado Forte” tem-se mostrado eficiente. E com a participação harmônica, mas bem regulamentada, da iniciativa privada.
Ora, há quem o dirá: “E isso tem o quê a ver com Piracicaba?” Simplesmente, tudo. E, quando ou se nossos políticos o admitirem ou entenderem, talvez venham, eles próprios, a propor grupos de estudos independentes que, pelo menos, sugiram o que deveríamos fazer para sentirmo-nos parte desse “admirável mundo novo”. Ou apenas continuar asfaltando ruas para mostrar serviço?