ARTIGO

Crise na USP e no ensino médio brasileiro

Por Erica Gorga |
| Tempo de leitura: 3 min

O reitor da Universidade de São Paulo, professor Aluisio Augusto Cotrim Segurado, em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo em 2/6, admitiu que a greve dos alunos que paralisa o campus da USP desde o dia 14/4 é motivada por fins políticos. Nas palavras do reitor: “Todos os estudantes que compareceram às negociações, as lideranças, vieram com camisetas de movimentos políticos, ligados a partidos políticos de um espectro extremado.”

Mesmo que implicitamente, o reitor da mais reconhecida universidade brasileira, referiu-se a movimentos políticos de extrema esquerda que direcionam a atuação de líderes estudantis da universidade. No editorial “Os tiranetes da USP”, datado de 3/6, o mesmo jornal analisou: “Do relatório de Segurado, depreende-se que extremistas que dominam as assembleias fabricaram uma crise na universidade, orquestraram o que chamam de “greve”, sequestraram as pautas legítimas da comunidade e calaram o debate, com objetivos exclusivamente políticos.” E, ainda, explicitou: “(...) é à base da imposição de sua vontade que o grupelho vem pautando a greve e tutelando os estudantes. São as velhas estratégias violentas da esquerda que não condizem com o diálogo, a tolerância e a democracia.”

Portanto, o episódio da greve dos alunos da USP, como o reconhecido pelo O Estado de S.Paulo, demonstra claramente que os mesmos estão servindo de massa de manobra de interesses políticos de partidos de extrema esquerda. Os prejuízos à educação de todos os alunos da universidade são gravíssimos.

Apesar de o reitor ter proposto reajuste da bolsa concedida aos estudantes mais vulneráveis, de R$ 885 para R$ 912, os militantes profissionais passaram a exigir o pagamento de um salário mínimo paulista (mais de R$ 1.800) para que possam cumprir aquilo que é sua obrigação mais básica: assistir às aulas e estudar. Como reconheceu o reitor, a demanda dos alunos ativistas grevistas “virou uma imposição, e não uma negociação”.

O grau de ativismo político dos líderes estudantis da universidade pública é parte do quadro agudo de sintomas da crise do sistema educacional brasileiro.  O censo escolar de 2025 mostrou que a evasão escolar bateu recorde no país. Um milhão e cem mil crianças e jovens em idade escolar estão fora das escolas. Isso após o governo do PT ter criado o projeto Pé-de-Meia, que hoje gasta entre doze a dezesseis bilhões de reais por ano pagando alunos para fazerem aquilo que, repita-se, deveria ser o seu dever: estudar. A taxa de evasão nos cursos presenciais de ensino superior também é elevadíssima, atingindo 21,4% dos alunos ingressantes na rede universitária pública.

 Os estudantes do sistema de ensino médio e universitários públicos, agora, para cumprirem a básica obrigação de estudar, demandam serem pagos. E mesmo sendo pagos, não só não estudam como abandonam as escolas e universidades públicas, deflagrando tais índices altíssimos de evasão escolar. Os universitários ainda se acham no direito de simplesmente reivindicarem salário incondizente com qualquer viabilidade orçamentária da universidade que já lhes oferta ensino gratuito custeado pelo pagador de impostos do estado de São Paulo.

A qualidade do ensino na sala de aula está despencando tanto que os professores já não conseguem ensinar porque os estudantes não dão mais o devido valor para os estudos. E o grande problema é a lógica às avessas implementada. Quanto mais um aluno recebe para estudar sem ser cobrado para tanto, menos ele quer estudar. As bolsas de estudo tradicionalmente eram associadas ao mérito do estudante, ou seja, recebiam bolsas aqueles que demonstravam ser os melhores nas avaliações e nos projetos de pesquisa.

Portanto, a questão fulcral está no sistema de incentivos torpes que elimina o esforço porque premia a mediocridade e o ócio, criando gerações sem senso de dever nem responsabilidade.

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