ARTIGO

Cidade de aura abençoada

Por Cecílio Elias Netto |
| Tempo de leitura: 3 min

Jamais saberei das tantas vezes em que tentei responder à, para mim, estranha pergunta: “por que amar Piracicaba?” Pois, em contrário, como não a amar? Embora o amor não se explique, realidades há que cativam por si mesmas. Tais como o belo, o bem e o bom, valores transcendentais desde a Antiguidade cultivados. E Piracicaba transpira o bem, Piracicaba é bela, Piracicaba é boa. Logo, sedutora por própria natureza.

Recentemente – e forçado a ainda mais recolher-me – conheci algumas outras pessoas, notáveis em atendimentos e talvez ignoradas em suas atividades. Homens e mulheres anônimos, como anônima se faz quase toda a população. Ao contrário, o mal e a bandidagem são divulgados e, assim, promovidos. Ficamos sabendo dos malfeitores. Mas desconhecemos a silenciosa multidão que, na realidade, edifica o arquitetado por lideranças operantes. Semelhantemente, pois, à atualidade.

Eram, os novos conhecidos, de diversas localidades. Alguns, de outros estados, em especial daquele que é a síntese nacional, Minas Gerais. Ah! essa Minas Gerais silenciosa, sábia, acolhedora, recatada... E nordestinos e nortistas. Todos eles unidos por um, para eles, novo sentimento: o amor a e por Piracicaba. Consideravam-se autênticos caipiracicabanos, essa tão magnífica realidade de os aqui chegados tornarem-se mais apaixonados do que muitos dos chamados “nativos”. Nossa terra tem um carisma indefinido que – se não compreensível – parece pairar no ar, soprado pelas brisas, no correr das águas, na  inspiração que motiva nossa gente.

Um dos moços recém-conhecidos – estava em Piracicaba há menos de três meses – tentou explicar-se em sua simplicidade cativante: “Parece que não saí de casa. É a mesma hospitalidade que a gente tinha lá em Minas.” Ao escrevinhador, aquelas palavras soaram qual música. Pois, já há muitos anos, ele vem dizendo ser, nossa terra, a “mais mineira das cidades paulistas.” Mas... Há que se ter receios. E cada vez mais inquietantes. Pois a insensatez das tão rápidas transformações conduz, ao mesmo tempo, à possibilidade de perderem-se valores essenciais. São evidentes os indícios: o isolamento dos bairros, o descuido de tradições bicentenárias, o medo em relação ao outro, até do próprio vizinho. Há uma febre de isolacionismo suicida.

Piracicaba – essa eterna e amorável Noiva da Colina – é abençoada por ser cuidadosamente receptiva. Piracicaba acolhe. E, acolhendo, ama. “De onde você é; de qual família?” São as perguntas iniciais ao aparentemente novo desconhecido. Interrogações, sim. Para sabermos como recebê-lo junto à tribo. Em seguida, um abraço, boas-vindas, o convite para um “cafezinho”.  Foi assim com milhares de famílias que entre nós se instalaram em busca de, pelo menos, conhecer o ‘espírito do lugar, o espírito de um povo’. E passaram a amar Piracicaba mais ardentemente do que os aqui já vivendo.

Talvez, um dos principais dons desta terra tenha um especial significado: a cordialidade. É uma terra cordial. Somos um povo cordial, apegadiço. Apegamo-nos uns aos outros assim que passamos a tê-los como “gente nossa”. Ficam-nos no coração mesmo porque este, em latim, é “Cor, Cordis” – raiz do cordial, da cordialidade.

Dos cordeiros. O piracicabano, pois, tem a mansidão dos cordeiros. Mas, quando necessário, a bravura dos leões. Construímos mansamente, mas com energia e vitalidade.

Amar Piracicaba é tão natural quanto o ar que se respira. E não precisa de explicações. Pois o mistério dessa sedução está no fato – por assim dizer milagroso – de

Piracicaba ter, por natureza, uma aura abençoada.

Cecílio Elias Netto é jornalista e escritor.

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