Noite e dia
Noturno
(Um texto sem verbos)
A noite, o frio, a solidão. O vazio na alma, batidas galopantes no coração. Suores frios pelo rosto, nos braços, em toda a pele. Na vizinhança, o canto solitário de um galo. Ou o gemido de um galo solitário. Qual a diferença? Talvez, nenhuma. Ou todas elas. Na realidade, apenas misturas de sons, qual o galope dentro do peito.
E ela? A ausência, por quê? Nem sequer uma sombra na esquina, sob a lâmpada de um poste de madeira, a luz amarela. Nem o som de passos, aquele deslizar lento e tímido na calçada. Talvez medroso. E o perfume, o cheiro especial e anunciador, minha angústia e meu desejo? Um silêncio de dor, de ausência. E o receio de um adeus sem avisos nem despedidas.
Acordes de Chopin num piano ao longe, uma janela de cortinas escuras, ainda que transparentes. Alguém também com dor. Ou com saudade sem ausência. Como eu, na dor mais amarga do que a saudade, dor de espera, na dúvida de um encontro crucial: um fim, um recomeço? E, então, o apito do guarda na esquina, uma lâmina no silêncio, espanto no coração já com medo. Um automóvel de faróis baixos, lento, rodas macias no asfalto. Intrusos no martírio das dúvidas, do amor clandestino de tantas fugas e esperas. Essa, a insuportável ansiedade: o interminável aguardar, de minutos sentidamente eternos.
E a luz do poste cada vez mais pálida. E, então, nuvens indesejáveis, de asas pardas como pássaros gigantes, a Lua como que assustada com o seu próprio luar, covarde na fuga para dentro de si mesma. Da janela, a mesma melodia, o som monocórdio e melancólico de um lento e interminável arpejo de Chopin, novas gotas de fel na alma medrosa. E, então, silêncio, sons apenas dentro de mim, ao galope do coração.
Tudo, todas as coisas sem pressa alguma. Até mesmo o vento, agora uma simples brisa fria sobre as árvores, lenta brisa. Um gato no telhado, andar macio, olhos brilhantes. E a gata com dengos. O cio dos gatos, o cio do desejo. No meu corpo, esse cio humano, amor de febre. E ela? Medo na alma, medo da ausência, da perda, de um fim sem adeus. Medo e dor dentro de mim.
A longa noite, interminável. Depois dela, sinais de um outro dia também dolorosamente novo. A repetição: a fuga do luar na decepção por uma noite sem ousadias.
A chegada da pálida e tímida luz de um Sol bocejante. O cansaço da espera, o amargor da ausência. A mulher do adeus sem palavras.
Fim de noite, fim de caso. Fim de mim?
Diurno
(Um texto apenas com verbos)
Amanheceu. Despertou. Bocejou. Espreguiçou-se. Encostou. Abraçou. Sentiu. Desejou. Amou. Relaxou. Sorriu. Acariciou. Brincou. Levantou-se. Cantarolou. Aliviou-se. Barbeou-se. Banhou-se. Enxugou-se. Vestiu-se. Alimentou-se. Despediu-se. Beijou. Saiu. Dirigiu. Irritou-se. Xingou. Suou. Atrasou-se. Apressou-se. Estacionou.
Ajeitou-se. Entrou. Cumprimentou. Sentou-se. Conversou. Informou-se. Telefonou. Falou. Ouviu. Hesitou. Anotou. Preocupou-se. Reclamou. Resmungou. Bufou. Pensou. Recordou. Sorriu. Suspirou. Conformou-se. Decidiu. Digitou. Errou. Corrigiu. Recomeçou. Concentrou-se. Releu. Prosseguiu. Reviu. Aceitou. Concluiu. Enviou.
Levantou-se. Esticou-se. Relembrou. Alegrou-se. Imaginou. Desejou. Digitou. Agradeceu. Prometeu. Trovejou. Trovoou. Relampadejou. Alertou-se. Garoou. Chuviscou. Choveu. Resguardou-se. Entardeceu. Arrumou-se. Despediu-se. Apressou-se. Saiu. Dirigiu. Irritou-se. Chegou. Entrou. Abraçou. Saudou. Desvestiu-se.
Bebericou. Petiscou. Sentou-se. Ligou. Selecionou. Assistiu. Relaxou. Inspirou. Expirou. Esqueceu. Ofegou. Acomodou-se. Ressonou. Dormiu. Rouquejou. Apagou.
Cecílio Elias Netto é jornalista e escritor.