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Passeio de boia reacende dúvida: há piranhas no Piracicaba?

Por Gabriele C. Sanches/JP1 | Gabriele C. Sanches/JP1
| Tempo de leitura: 4 min
Will Baldine/JP

Com a proximidade do tradicional passeio de boia pelo Rio Piracicaba, boatos sobre a possível presença de piranhas no rio voltaram a circular nas redes sociais e entre pescadores. Para esclarecer o tema e evitar desinformação, o Jornal de Piracicaba consultou o professor da USP e  engenheiro agrônomo Brunno Cerozi, que apresentou esclarecimentos técnicos sobre a possibilidade de ocorrência da espécie, os riscos envolvidos e os cuidados recomendados à população.

Segundo o especialista, em termos biológicos, a ocorrência de peixes popularmente chamados de “piranhas” ou “pirambebas” é possível, uma vez que existem espécies com essas denominações em praticamente todas as bacias hidrográficas do Brasil, seja por ocorrência natural ou por introdução acidental ou intencional. Essa condição, no entanto, não permite afirmar que haja piranhas no Rio Piracicaba neste momento. Para que se possa falar em presença confirmada ou mesmo em um suposto surto, seria indispensável a existência de registros confiáveis, como fotografias nítidas, captura do animal e, preferencialmente, identificação realizada por um especialista ou por meio de uma coleção científica.

O professor também esclarece que relatos de pescadores podem funcionar como um sinal inicial de alerta, mas frequentemente são acompanhados de equívocos. Isso ocorre porque a identificação costuma ser feita a partir de impressões gerais do público leigo, levando em consideração fatores como o tamanho do peixe, a presença de dentes, mordidas em iscas ou em peixes presos ao anzol, além de cortes em redes e linhas de pesca. Esses indícios, segundo ele, não são suficientes para confirmar a presença de piranhas, já que espécies como o pacu podem ser facilmente confundidas com elas.


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Risco existe, mas é baixo e depende de situações específicas

Em relação aos riscos para banhistas e participantes do passeio de boia, o especialista afirma que, mesmo em locais onde há piranhas ou pirambebas confirmadas, o risco costuma ser baixo e bastante localizado. Episódios de mordidas geralmente estão associados a condições específicas do ambiente, especialmente em trechos de água muito rasa e estagnada, já que essas espécies preferem ambientes de águas mais lentas e evitam locais de correnteza mais forte. Outros fatores que podem contribuir para acidentes incluem a presença de alimento disponível, descarte inadequado de restos de pesca ou vísceras, presença de peixes feridos na água e comportamentos defensivos durante o período reprodutivo, quando algumas espécies defendem ninhos ou territórios.

O professor ressalta que os casos de mordida em pessoas não representam o padrão de comportamento desses peixes. Quando ocorrem, normalmente são eventos rápidos, atingindo extremidades como dedos das mãos ou dos pés, muitas vezes em situações em que os animais estão “experimentando” estímulos no ambiente diante da escassez de alimento. De acordo com ele, o risco mais significativo costuma ser para pescadores, especialmente aqueles sem experiência, principalmente durante o manuseio do peixe capturado. Nesses casos, há maior chance de mordidas nas mãos ao tentar retirar o peixe do anzol. A orientação é utilizar alicates próprios para pesca, manusear o animal com cuidado e jamais colocar os dedos dentro da boca do peixe.

Sobre o aspecto ambiental, o especialista explica que a simples presença de piranhas não indica, automaticamente, desequilíbrio ambiental. Para que isso pudesse ser caracterizado, seria necessário observar um aumento anormal da abundância desses peixes, devidamente documentado e associado a fatores como poluição, eutrofização, redução de predadores naturais, diminuição da oferta de alimento ou introduções em massa no ambiente. Segundo ele, sem dados concretos, não é possível tirar conclusões, restando apenas especulações.

Diante dos boatos que circulam, o professor afirma que, no momento, não há base técnica para alarme. A recomendação à população é evitar pânico e adotar cuidados gerais válidos para qualquer corpo d’água, como evitar locais com água muito turva, rasas ou com acúmulo de resíduos orgânicos, não descartar restos de pesca nas margens e ter atenção ao manusear qualquer peixe capturado.

O especialista chama atenção, porém, para um risco considerado mais relevante do que a presença de piranhas: a qualidade da água. Ele lembra que o banho em rios urbanos envolve riscos sanitários que variam de acordo com o local e com as condições do dia, especialmente após períodos de chuva. Sem monitoramento contínuo da balneabilidade, ou seja, sem a indicação oficial de condições próprias ou impróprias para recreação de contato primário, a recomendação mais prudente é evitar o contato direto com a água. Um diagnóstico ambiental divulgado em 2025 apontou que 19 afluentes e pontos da bacia do Rio Piracicaba apresentaram coliformes fecais acima do permitido, um indicativo clássico de contaminação por esgoto e, consequentemente, de maior risco à saúde.

Em tom bem-humorado, o professor resume: “A piranha é muito mais medo cinematográfico. Na prática, o que realmente ‘morde’ no Rio Piracicaba são os coliformes fecais”. Sem confirmação científica sobre a presença desses peixes, a orientação final é manter a calma, seguir recomendações de segurança e compreender que, em rios urbanos, a principal preocupação deve ser a saúde pública e a qualidade da água, e não boatos.

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