BUTANTAN

De cor azul vibrante, serpente recebe nome de Rita Lee em homenagem à cantora

Por Da Redação |
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Divulgação
A Trimeresurus insularis chegou ao Butantan em 9 de fevereiro de 2023; ela foi resgatada na Bahia
A Trimeresurus insularis chegou ao Butantan em 9 de fevereiro de 2023; ela foi resgatada na Bahia

A ligação de Rita Lee (1947-2023) com as cobras rendeu momentos icônicos na sua carreira. Um deles foi o resgate de duas jiboias do show de Alice Cooper em São Paulo em 1974. A cantora não curtiu a ideia de ver o roqueiro maltratando as serpentes e as levou embora do backstage.

O outro é quando Rita se vestiu de naja para cantar um de seus maiores hits: Erva Venenosa. A música faz referência à personagem dos quadrinhos Poison Ivy, que é pior do que cobra cascavel, seu veneno é cruel-uel-uel-uel. Um dos planos da anti-heroína da DC Comics é devolver a Terra à sua fauna e flora originais. Uma mensagem que refletia o amor da rainha do rock brasileiro pelos animais e pela natureza e sua ira contra seus maus-tratos.

Em 14 de junho de 2023, pouco mais de um mês depois do falecimento da estrela, em 8 de maio, chegava ao Museu Biológico do Instituto Butantan a verdadeira venenosa: a víbora-dos-lábios-brancos, de cor azul mar e grande beleza.

A pequena Trimeresurus insularis tem 65 centímetros e pouco mais de 60 gramas. Seus olhos vermelhos, tais quais as madeixas que a cantora cultivou por anos, lhes dão um ar agressivo. Mas seus movimentos calmos e precisos mostram que ela não é nenhuma Ovelha Negra. Porém, engana-se quem pensa que ela não dá o bote ao se sentir ameaçada. À espreita de presas, ela se transforma em um Doce Vampiro.  Por isso, não provoque!

Caso Sério - A Trimeresurus insularis chegou ao Butantan em 9 de fevereiro de 2023. Ela foi resgatada na Bahia com outros 59 animais que estavam sendo transportados ilegalmente dentro de um ônibus vindo de São Paulo. Os animais foram apreendidos pela Polícia Rodoviária Federal e levados ao Centro de Triagem de Animais Silvestres de Porto Seguro (BA). De lá, alguns foram trazidos ao Instituto, onde passaram por um período de quarentena até se instalarem no Museu Biológico do Parque da Ciência Butantan.

“Montamos um espaço com galhos de árvores e vegetação semelhante ao habitat natural da espécie para ajudar na adaptação. A serpente ficou uns dias sem querer se alimentar e praticamente não se locomovia até se sentir segura. Mas agora já está se alimentando normalmente”, conta a pesquisadora científica e coordenadora de manutenção animal do museu, Silvia Cardoso.

A bióloga havia preparado o ambiente para receber o casal de Trimeresurus insularis que estava sendo transportado junto. A fêmea, mais avantajada, embora tão bela e azulada quanto o macho, chegou em situação ainda mais precária ao Butantan e morreu dois dias depois.

Coube ao Menino Bonito sobrevivente se adaptar à nova vida, com a sorte de passar a ser cuidado por uma equipe de biólogos que entende as particularidades da serpente proveniente de ilhas da Indonésia.

“É uma espécie arborícola, por isso tem preferência em ficar no topo das árvores, raramente descendo ao chão. Assim, fizemos a ambientação de um recinto com galhos de diferentes espessuras, cipós, rochas, abrigos e aquecimento, para ela escolher os locais de sua preferência para repouso, locomoção e alimentação”, explica a bióloga.

Só vejo azul - A ocorrência da cor azul entre as víboras-de-lábios-brancos é considerada incomum, já que a maioria delas é esverdeada. “Esse padrão ocorre somente em algumas ilhas da Indonésia e se trata de um polimorfismo de cor, ou seja, quando espécies sofrem variações de cor, tamanho ou comportamento por questões ambientais e evolutivas, explica o biólogo e herpetólogo do Laboratório de Coleções Zoológicas do Instituto Butantan Francisco Luís Franco.

A cor também pode ser uma forma de o animal se camuflar no ambiente para fugir de predadores e enganar suas presas. “É o que chamamos de cores miméticas, feitas para confundir”, afirma o pesquisador científico e diretor do laboratório de Biologia Estrutural, Carlos Jared.

À noite, a espécie também se alimenta de pequenos mamíferos, anfíbios e lagartos. Por ter a cauda preênsil, consegue se pendurar em galhos e segurar as presas impedindo-as de escapar.

“Como são animais que estão acostumados a viver isolados em uma ilha e a comer pássaros, eles precisam se instalar no topo das árvores, se disfarçarem por lá, para não deixar as presas escaparem”, ressalta Carlos.

Perigosa - Mas, afinal, a víbora-dos-lábios-brancos é realmente cruel e pior que uma cascavel?

“O veneno da Trimeresurus insularis tem ação local, mais parecido com o das jararacas. A picada causa necrose, mas não tem efeito neurotóxico, que afeta o sistema nervoso, como o veneno da cascavel”, diz Silvia.

Apesar disso, este tipo de envenenamento pode causar grandes danos à saúde. Então, todo o cuidado é pouco.

“O veneno dela é hemolítico, e por isso destrói as hemácias do sangue, causando hemorragias. É também proteolítico, que causa necrose do tecido, corroendo a pele. Este veneno pode ser cruel sim”, explica Carlos.

Outro problema que envolve acidentes com a serpente é que o soro contra este veneno não está disponível no Brasil, já que a espécie é exótica. O Butantan, maior produtor de soros antivenenos da América Latina, produz imunizantes contra venenos de espécies que ocorrem no Brasil. E somente tem ampolas disponíveis contra o soro da víbora por ter um exemplar da espécie no museu.

“É uma grande irresponsabilidade trazer estas serpentes dessa forma, sem qualquer cuidado com o animal e com risco de ocorrer acidentes sem o devido antiveneno disponível”, pondera Silvia.

Chega mais - Mas qual a verdadeira relação da Santa Rita de Sampa, a protetora dos animais abatidos, com a serpente do Butantan?

“Essa serpente é a nossa ‘ovelha azul’, por que ela é muito diferente, assim como a Rita, que foi inovadora nas ideias, na música e na conservação do meio ambiente através de seus livros. Quisemos fazer essa homenagem pela influência tão importante dela na nossa cultura, especialmente para as mulheres, e para incentivar as meninas a se interessarem mais por ciência”, diz a pesquisadora e diretora do Museu Biológico do Butantan Erika Hingst-Zaher.

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