UM ANO DEPOIS

Linha 444: um ano depois, sobrevivente relembra ataque

Por Roberto Gardinalli | roberto.gardinalli@jpjornal.com.br
| Tempo de leitura: 3 min
Alessandro Maschio/JP
Entre os sobreviventes do ataque, estava o jovem Alan Pressutto Rossi
Entre os sobreviventes do ataque, estava o jovem Alan Pressutto Rossi

O dia 21 de junho de 2022 era mais um dia corriqueiro para a população de Piracicaba. Pessoas andavam pelas ruas, iam e voltavam do trabalho, saiam para almoçar. O trânsito, como sempre, movimentado nas principais avenidas da cidade. Movimentado, também, estava o Terminal Central de Integração, onde passageiros pegavam ônibus para seguir seus caminhos naquele dia. Num desses veículos, que fazia a linha Centro/Vila Sônia, número 444, por volta das 14h40, o cotidiano de Piracicaba foi alterado por uma tragédia.

Junto aos passageiros estava um homem de 53 anos, que embarcou no transporte público com uma faca em uma sacola e atacou seis pessoas. Três delas morreram. Entre os sobreviventes do ataque, estava o jovem Alan Pressutto Rossi. Naquele dia, ele perdeu o ônibus que costuma pegar na volta do trabalho. “Eu peguei o ônibus da Unileste até o Terminal Central. Até os meus amigos brincaram, disseram que ‘você não vai no seu ônibus, vai ter que ir no nosso’. Por incrível que pareça, era o Sônia 444”, disse. Alan conta que chegou a cruzar com o autor na porta do veículo.

“Não costumo sentar. Fico em pé perto da porta. Ele entrou no ônibus, pediu licença e sentou no último banco. Até então era uma pessoa qualquer. Quando passou um pouco, ele começou a dar facada em todo mundo”, lembrou. O ataque aconteceu no ponto da avenida Armando de Salles Oliveira. Segundo relatos de testemunhas, o suspeito se levantou, tirou a faca da sacola e começou a atacar os passageiros. “Eu fui o último. A porta estava fechada e só abriu quando o ônibus parou”, contou. Alan foi atingido no pescoço. O autor das facadas se rendeu e foi preso em seguida.

VIDA

Alan foi levado para o HFC (Hospital dos Fornecedores de Cana). Lá, passou 15 dias na UTI, dos quais, seis ficou em coma. A vida do jovem foi salva por dois atos de solidariedade. Ainda no local do crime, uma mulher pressionou o ferimento até que o resgate chegasse. “Quem me ajudou foi a Maria. Se não fosse ela, eu não estaria aqui hoje”, reconheceu.

O outro ato veio de seus irmãos, como ele chama, da torcida Esquadrão, do XV de Piracicaba, da qual participa. Os torcedores se reuniram para arrecadar doações de sangue para que o rapaz sobrevivesse às cirurgias. “O Gema (presidente da torcida) ajudou muito. Todo mundo foi na porta do hospital. A gente sempre está junto na arquibancada, viramos uma família”, disse. “Eu considero eles como irmãos”, completou. Hoje, Alan também ajuda com uma ação de incentivo dos amigos da torcida. “Com isso, salvaram a minha vida, porque não salvar mais?”, disse.

Um ano depois, Alan segue se recuperando. A facada deixou sequelas. “Ainda sinto dores. Meu braço não levanta, só mexo a mão. Foram 16 nervos rompidos, e faço fisioterapia todo dia”, contou. Mesmo com lembranças de um dia traumático, ele se mantém uma pessoa de riso fácil. E para provar, basta falar do seu amor: o Nhô Quim. “A gente só fica um pouco triste porque o time podia estar entre os primeiros, mas no dia dos jogos quero estar presente”, disse, com o sorriso de quem tem uma vida toda pela frente.

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