Após dois anos de muita preparação física e mental, o ultramaratonista Joilson da Silva Ferreira, o Jabá, embarcou no começo de fevereiro rumo a maior aventura de sua carreira: participar da 6633 Arctic Ultra, desafio com 620 km de percurso com temperaturas médias de 40º C negativos. Um total de 21 atletas de oito nacionalidades participaram da largada no dia 23 de fevereiro, no Território de Yukon, no Canadá, mas apenas seis chegaram ao fim da prova.
Os ingleses Nat Taylor e Tom Hunt dividiram o primeiro lugar, com um novo recorde de 149 horas e 47 minutos. Infelizmente, o representante brasileiro, após distensão do músculo posterior da coxa direita, teve de abandonar a competição após 20 horas de percurso. Mesmo sem condições de seguir na prova, Jabá continuou a aventura, dando apoio e ajuda à organização e aos atletas durante todo o percurso.
Participar da 6633 Arctic Ultra era um sonho antigo de Jabá, que foi adiado em função da pandemia de Covid-19, que paralisou o mundo no início de 2020. Mas, assim que soube que a prova seria realizada em fevereiro deste ano, o atleta acionou todo seu aparato técnico e médico para organizar um cronograma que incluiu rígido treinamento e suplementação, aquisição de equipamentos específicos para as baixas temperaturas e o levantamento de patrocínio para custear os valores da viagem: um investimento de aproximadamente R$ 100 mil.
O atleta acumulava experiências anteriores em percursos de longa distância no gelo, uma em Minnesota e outra no Alasca, ambas nos Estados Unidos. No entanto, neste caso, não se tratava apenas de uma corrida, mas sim de uma aventura expedicionária que terminaria à beira do Oceano Ártico (Canadá), na qual os atletas experimentariam algumas das paisagens mais extremas e belas do mundo. A 6633 Ultra Arctic também é considerada como a corrida mais difícil, fria e ventosa do Planeta Terra.
“Me dediquei muito nos dois últimos anos para estar apto para a competição. Claro que acidentes acontecem, mas quando ocorre com a gente é difícil segurar a onda. Estava muito preparado para esta prova e tinha certeza das minhas condições físicas e psicológicas para concluir o percurso. Mas, Deus é quem sabe das coisas e com a lesão tive que parar. Foi algo que inicialmente me frustrou muito, tirou meu chão, mas com apoio da minha esposa Luciana e da própria equipe organizadora eu fui acalmando e entendendo que poderia retornar na próxima edição. E, com certeza, é o que farei”, disse Jabá.
LONGO CAMINHO
Para chegar até o local da prova, Jabá e sua esposa Luciana Marchese percorreram um longo caminho. Saíram de Piracicaba (SP) em 10 de fevereiro rumo à capital, onde embarcaram no Aeroporto Internacional de Guarulhos com destino a Toronto, no Canadá. No dia seguinte, o casal embarcou para Vancouver e algumas horas depois estavam em mais um voo, dessa vez para Whitehorse (território de Yukon), cidade localizada a mais de 5 mil quilômetros da capital canadense. Ali, permaneceram cerca de duas semanas para aclimatação, percorrendo pequenas distâncias em ambiente local, treinos de musculação, pesquisa e compra de materiais específicos, além de teste e apresentação dos equipamentos e reunião com a equipe técnica e demais atletas.
Na véspera da largada, Jabá e Luciana foram de carro com os demais atletas e organização da prova até o local da largada, o Hotel Eagle Plains, localizado há mais de 860 km da cidade de Whitehorse. Mesmo após ter deixado a prova em função da sua lesão, Jabá permaneceu no local com sua esposa, integrante da equipe organizadora da 6633 Ultra Arctic.
Assim, o casal teve a chance de fornecer apoio e ajuda à organização e aos atletas durante todo o percurso, além de apreciar a beleza natural e excêntrica da paisagem local, como a presença de linces, raposas do ártico, caribus, alces, culminando com um dos mais magníficos espetáculos da natureza, a aurora boreal. E o mais importante, Jabá pode observar e aprender com os outros atletas, podendo assim, voltar ainda mais preparado para a prova no próximo ano.
“Deus sabe de tudo. Apesar de não ter completado a prova, agradeci a cada momento pela oportunidade de estar vivenciado toda aquela experiência. São coisas que você não acredita que existem, exceto se estiver no local vendo com os próprios olhos. Tudo muito emocionante”, destacou o atleta.
200 CORRIDAS
Em mais de três décadas de carreira, Jabá acumula participação em mais de 200 corridas, sendo a maioria superiores a 42 km. Em 2011, ele correu sua primeira prova com mais de 200 km, na BR 135 Milhas, e com isso obteve índice obrigatório para provas de alta performance. Na sequência, registrou presença no Deserto do Vale da Morte, nos EUA, marcando início às suas provas internacionais.
Em 2015, na Argentina, foram mais 160 km na La Mission, com 8.500 metros de altimetria. No ano seguinte, o desafio foi no gelo com 217 km na Arrowhead, em Minnesota, nos EUA. E em 2018, conquistou o título de campeão da Idita Sport 200 milhas, no Alasca.