“Os animais são meu porto seguro, com eles, nunca me senti sozinho”

Por Laís Seguin |
| Tempo de leitura: 5 min

Com apenas 26 anos de idade, o médico veterinário Matheus Ferreira dos Santos já coleciona histórias inspiradoras de sua vida e trabalho para contar. Formado em 2021 pela UniFAJ (Centro Universitário de Jaguariúna), sua atuação tem ênfase tanto em animais de pequeno porte, em especial cães e gatos, quanto silvestres e pets não convencionais. Iniciou sua carreira profissional em 2016, em um estágio no Centro de Controle de Zoonoses de Jaguariúna, como tratador. Atualmente, Matheus “por ironia do destino”, como costuma dizer, é coordenador do CCZ (Centro de Controle de Zoonoses) de Piracicaba e do Núcleo de Bem-Estar Animal. Ele também é adestrador pela Federação Brasileira de Adestradores de Animais.

O trabalho de Matheus tem ganhado destaque nas últimas semanas, em razão dele ter sido o responsável pelo resgate e acompanhamento do caso do cão Baruk, um pastor belga malinois que morreu dias após ser baleado no pescoço por um ex-policial militar, vizinho da propriedade onde morava, no distrito de Tupi.

Nesta entrevista ao Persona, Matheus detalha ao JP como certos momentos de sua vida foram determinantes para a escolha da profissão e relembra outros casos marcantes de maus-tratos aos animais na cidade.

Qual o motivo de você ter escolhido ser médico veterinário? De onde surgiu esse amor pelos animais?

Sou órfão de pai e mãe, ela faleceu quando eu tinha dois meses de idade e ele, pouco tempo depois do meu aniversário de dois anos. Meu tio me criou, ele foi tratador no Zoológico de Piracicaba e sempre criou animais dentro do sítio dele. Eu acompanhava tudo que ele fazia, ia junto dele, desde criança. Então, acredito que essa vontade de estar em meio aos bichos e fazer algo em prol deles, surgiu a partir disso. Os animais são meu ‘porto seguro’, com eles, nunca me senti sozinho. Sempre quis ser médico veterinário, nunca pensei em seguir outra carreira.

Na sua vida pessoal, você tem animais de estimação?

Tenho sim, adotados e comprados. Eu não sou contra a compra, sou contra quem cria de forma errada, seja em canis, para viabilizar lucro sem se preocupar com o bem-estar do animal, seja em casa. Algumas raças, inclusive, são importantes de serem preservadas, quando pensamos principalmente nos cães-guias, nos de busca e salvamento, guarda e proteção e faro de entorpecentes. Há uma expressão comportamental que consegue ser avaliada. No Núcleo de Bem-Estar Animal, temos batido na tecla da fiscalização, em especial para quem trabalha com criação e reprodução de animais, siga uma série de normativas.

Qual foi o pior caso que você já atendeu?

Foram dois casos, na verdade. O primeiro, é o da cadela “Panqueca” que ficou 12 horas com um vergalhão de construção civil enfincado no quadril, após ser ferida pelo dono, em junho deste ano. Ela sobreviveu e foi encaminhada para adoção, mas o resgate e a remoção do material foram bem complexos. O homem que cometeu o crime permanece preso, algo que até onde eu tenho conhecimento, era inédito no Brasil, um autor de crime de maus-tratos aos animais não conseguir responder em liberdade. E claro, o caso do Baruk, que teve tamanha comoção, em razão da crueldade tanto por ter sido baleado, quanto porque ele não resistiu e morreu pouco tempo depois. O autor do crime, ainda na prisão em flagrante chegou a dizer que estava “rezando” para que o cão não sobrevivesse, caso contrário ele “mataria o dono”. Na parte clínica, quando o animal é atropelado por exemplo, nós, médicos veterinários, estamos “acostumados”, vamos dizer assim. Quando acontece um caso de maldade, cuja intenção é matar, é muito triste.

Quais são as maiores dificuldades no dia a dia do seu trabalho?

O tempo tem sido o meu maior obstáculo (risos), porque ele é curto e a demanda só aumenta. Eu gostaria de conseguir fazer muito mais coisas em um dia do que consigo atualmente. As demais adversidades que podem surgir no trabalho, eu não encaro como obstáculos. Na profissão, diariamente me deparo com casos de famílias que não têm condições, financeiras mesmo, para tratar o animal e eu ajudo como posso, forneço o que precisa, mas não consigo arcar com todos os custos dos que me procuram. Tem essa questão também.

Quais os principais erros que você identifica no cuidado dos gatos e cachorros pelos proprietários?

Não pesquisar sobre o animal e as necessidades dele antes de adquiri-lo, e não se preparar financeiramente. Adotar por impulso ou comprar por impulso. Não se preocupar com a vacinação ou então, vacinar uma vez e nunca mais fazer o acompanhamento. Não levar o pet para fazer exames de rotina com um médico veterinário. Eu percebo que no geral, as pessoas têm muita dificuldade em organizar sua vida, em prol do animal, seja ele de qualquer espécie ou raça.

Quais são as suas recomendações em relação aos cuidados com felinos e cães?

A principal recomendação que eu posso dar é: vacinem seus animais. Mantenham a vacinação em dia, principalmente contra as infecções virais e a de raiva. O maior gasto financeiro é quando o animal é filhote, quando ele entra na fase adulta é só reforço anual.

O que Piracicaba precisa melhorar para você, com relação à saúde animal e castrações?

Começa pela educação. Se as pessoas terem a base já na infância, de como manter o bem-estar dos animais, elas se tornam adultos conscientes que reparam nas próprias atitudes e nas dos que estão ao redor. Diminuiríamos, por exemplo, o número de abandonos, de maus-tratos, de guarda irresponsável (pessoas que deixam seus animais soltos na rua). O problema não está na eficiência dessas campanhas e, sim, na falta de conscientização das pessoas. As campanhas são eficientes, o abandono é que não acaba, as pessoas continuam colocando na rua seus cães, por exemplo, ou porque se tornaram um fardo, ou porque estão dando gastos, enfim, não se planejaram. Temos um bom número atualmente de castrações gratuitas que realizamos. Nos bairros Gilda e Mario Dedini, já castramos 300 animais até o momento e pretendemos implantar novos equipamentos de anestesia inalatória para animais que hoje não conseguimos atender, por questões anatômicas e fisiológicas, como o caso das raças de cães braquicefálicas: Shih-tzu, Lhasa Apso, Pug e Buldogue francês. Projetos estão em andamento como o CastraFácil e o Tutor de Responsa, que são trabalhos práticos e teóricos para conscientização. O Centro de Controle de Zoonoses atua em conjunto com os poderes Executivo e Legislativo, além das Polícias Militar e Civil na causa animal, para que tenhamos uma Piracicaba melhor.

Laís Seguin
lais.seguin@jpjornal.com.br

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