Anos após morte de filho, Sandra sonha em escrever um livro
A década de 1980 registrou a evolução da ciência médica para o registro dos primeiros casos de transplante de fígado. O piracicabano Victor Salvador Pexe, foi o terceiro a passar pelo procedimento que se tem registro no Brasil e sua história teve repercussão nacional, após a família promover uma campanha para financiar a viagem e a cirurgia dele, ainda bebê, nos Estados Unidos. Victor morreu aos 33 anos de idade, por complicações de uma infecção. Hoje, cinco anos após a morte do filho, Sandra Pissinato sonha em escrever um livro para homenageá-lo.
Nas redes sociais, a mãe escreveu sete postagens que seriam trechos do livro. “Meu objetivo é mostrar que ele foi um guerreiro e de eternizar a memória dele. Eu não consegui nenhum profissional que pudesse fazer isso por mim, até porque teria que pagá-lo e não tenho condições no momento para arcar com esse investimento”, explica.
Logo na primeira postagem, ela conta que o filho, quando nasceu, tinha dificuldades para mamar e vomitava muito. Com o passar dos dias ele, além de não ganhar peso, começou a ficar com a pele e olhos amarelados. Devido à ausência de uma melhora, o recém-nascido foi encaminhado à Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).
Ao chegarem em Campinas, os médicos pediram exames, entre eles o de sangue e uma biópsia do fígado. “Ele foi diagnosticado com atresia das vias biliares, eu perguntei ao médico se tinha cura e infelizmente, não. Fomos novamente transferidos, agora para São Paulo”, conta Sandra.
A atresia de vias biliares é uma doença do fígado que ocorre em recém-nascidos. As células do órgão produzem um líquido chamado bile, que ajuda na digestão de gorduras e carrega algumas substâncias para serem eliminadas pelo intestino por meio de ductos biliares. Na AVB ocorre uma inflamação destes ductos, levando a uma obstrução progressiva dos mesmos.
Em São Paulo, os médicos comunicaram à família que seria necessário que o Vitor passasse por um procedimento de transplante de fígado. Ele tinha oito meses de idade e ninguém no Brasil, tanto médico quanto paciente, havia feito o procedimento. Enquanto assistia a um programa jornalístico na televisão, Sandra viu que a cirurgia estava sendo feita na cidade de Pitsburgo, nos Estados Unidos.
“123 mil dólares, o que atualmente equivale à 629.550 reais, era o que o hospital cobrava na época, fora a viagem de avião e hospedagem. Conseguimos o dinheiro através do apoio de doações da população e também da visibilidade da imprensa”, relembra Sandra. Victor foi o terceiro caso brasileiro de transplante de fígado que se tem registro.
Líder comunitário na região norte de Piracicaba, Victor residia no Jardim Gilda e editava o jornal Caderno do Mário Dedini, o primeiro jornal impresso do bairro. Em seu perfil no Facebook, se definia como um “repórter do povo”.
Além de vendedor de suco de laranja, pães de queijo e automóveis, Victor chegou a montar uma bicicletaria na avenida Dois Córregos. Lutou, e obteve êxito na liberação e aquisição gratuita do remédio Ciclosporina, que atua no controle do sistema de defesa do organismo e é utilizado para evitar a rejeição de órgãos transplantados ou para tratar algumas doenças autoimunes.
“Há muitas coisas que as pessoas ainda não sabem sobre meu filho e que podem servir de exemplo para quem tem tudo e mesmo assim reclama da vida. Mesmo doente, ele nunca deixou de trabalhar”, finaliza Sandra.
Laís Seguin
lais.seguin@jpjornal.com.br
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