Crianças devem ser orientadas ao uso de máscara facial, distanciamento social e higienização das mãos: “são essenciais”
Com o retorno às aulas e o enfrentamento da pandemia do novo coronavírus, aumenta a preocupação dos pais quanto a saúde e segurança dos filhos. No Estado de São Paulo 100% dos alunos devem retomar a rotina. Apesar de a vacinação contra a covid-19 ter atendido as crianças de 5 a 11 anos, permitir a convivência nas escolas – mesmo com a manutenção dos protocolos de higiene – ainda perturba a maioria dos pais.
Nesta entrevista, o infectologista do Ivip, Hamilton Bonilha de Moraes, explica a importância da imunização das crianças e do papel dos pais no acompanhamento da vida escolar nesse momento que ainda inspira cuidados.
Qual a importância de os pais vacinarem seus filhos com todas as doses contra a covid-19?
Com o surgimento da variante Ômicron do Sars CoV-2 ficou mais evidente a necessidade da vacinação das crianças contra a covid-19, principalmente devido a possibilidade de aumentar a proteção vacinal da população e reduzir as chances de novas mutações. Na vida real, estamos evidenciando famílias inteiras contaminadas devido ao alto poder de transmissibilidade dessa variante, com potencial de gravidade em idosos com comorbidades ou com vacinação incompleta e em não vacinados.
Para os que estão com medo, ou que leram matérias sem fundamentação científica, podemos dizer que a vacina é confiável?
A vacina da Pfizer, que tem uma tecnologia inovadora de RNA mensageiro estudada há 30 anos, aprovada anteriormente pelas agências internacionais de medicamentos dos Estados Unidos (FDA) e Europa (EMA) e, recentemente no Brasil pela Anvisa (Agencia Nacional de Vigilância Sanitária), foram testadas antes da aprovação em 4.500 crianças de 5 a 12 anos de idade, indicando segurança, respostas imunes e uma taxa de eficácia de 90,7% em participantes sem infecção prévia de Sars CoV-2 a partir de sete dias após a segunda dose. A aprovação do imunizante nos Estados Unidos também considerou a segurança avaliada em um estudo que contou com aproximadamente 3.100 crianças de cinco a 11 anos. Quanto aos possíveis eventos adversos, mais especificamente a miocardite, os dados do CDC (Centro de Controle de Doenças dos EUA) mostram que entre 7,1 milhões de doses aplicadas até o início de janeiro foram relatados apenas 14 casos suspeitos. Por outro lado,segundo o Ministério da Saúde, desde o início da pandemia, o Brasil soma 1.449 mortes de crianças até 11 anos em decorrência do novo coronavírus e mais de 2.400 casos da Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica associada à [sequelas] covid-19, conjunto de sintomas graves que podem levar à morte. Portanto, fica claro que o benefício da vacina supera os riscos. A outra vacina também aprovada para crianças imunocompetentes entre 6 a 17 anos é a Coronavac produzida pelo Instituto Butantan, que utiliza uma tecnologia muito antiga de vírus morto, como a vacina da gripe, testada em 14 mil crianças na faixa etária de seis meses a 17 anos em seis países, demonstrando ser significativamente efetiva contra hospitalizações, internações em UTIs e óbitos na população pediátrica. Até o início de janeiro haviam sido imunizadas com todas as vacinas aprovadas contra a covid-19 cerca de 4 bilhões de pessoas no mundo todo, portanto, não pode ser considerada experimental pois não é usada apenas em estudos clínicos e, sim, na vida real.
Por que dessa vez, há tantas crianças infectadas pela covid-19?
Acredito que se deva a dois fatores, ou seja, ao maior potencial de transmissibilidade da variante Ômicron associado a população pediátrica não vacinada.
É importante os pais analisarem se a escola tem mantido os protocolos de prevenção?
Sim. É importante os pais irem às escolas para verificar se os protocolos de prevenção estão adequados.
Por que esses protocolos são tão importantes?
As crianças devem ser orientadas a aderir às medidas preventivas de uso de máscara facial, distanciamento social e higienização das mãos, principalmente devido às evidências que mesmo as que tiveram a covid-19 anteriormente ou que foram vacinadas podem adquirir novamente o vírus e adoecer ou transmitir para outras crianças e familiares.
Em sua clínica há muitos pacientes que precisam fazer algum tipo de tratamento pós covid-19, devido às sequelas? Há alguma estimativa de pessoas que ficam com sequelas após ter a doença, mesmo entre as que tiveram sintomas leves ou assintomáticas?
Sim, as sequelas podem acontecer em diferentes órgãos mesmo em casos leves, que vão desde perda do olfato e paladar, perda de cabelo, perda de concentração, memória e desorientação a inflamação no fígado, pulmões e coração, diabetes, AVC (acidente vascular cerebral) e trombose. A covid -19 longa ou prolongada é caracterizada principalmente por cansaço, fraqueza e alterações psiquiátricas, que podem durar meses após a eliminação do vírus. Os tratamentos devem ser feitos por meio de reabilitação especializada. Felizmente, esta nova variante por ser menos agressiva deve gerar menos complicações. Infelizmente, movimentos anti-vacinação têm acontecido no mundo todo, principalmente devido à notícias falsas e fatores culturais sustentados pela insistência na liberdade individual de escolher o que é melhor para os filhos, atração por uma vida natural sem uso de medicamentos e produtos químicos industrializados e rotulação das vacinas na categoria de “imunidade artificial” e, mais especificamente na da covid-19, como “experimental”. Esses mitos não têm apenas impacto na saúde individual, mas sim na saúde pública, refletindo em uma cobertura vacinal inadequada, não apenas contra à covid-19, mas também contra outras doenças anteriormente erradicadas, como o sarampo e a poliomielite. Portanto, procurar se orientar por meio de informações científicas de credibilidade e não por mídias sociais com viés político ideológico e ter a disponibilidade para os pais escolherem entre as 2 vacinas aprovadas pela Anvisa para as crianças é a melhor forma de aumentar a adesão à vacinação e, consequentemente, um retorno as aulas com mais segurança.
Beto Silva
beto.silva@jpjornal.com.br
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