Não há pessoa, por mais educada e autocontrolada que seja, que de vez em quando não cometa alguma gafe. Uma vez cometida, que fazer? Desculpar-se e mostrar arrependimento, geralmente não resolve, pois acaba a emenda saindo pior do que o soneto. Quase sempre o melhor é fingir que não percebeu o mau passo e tocar adiante.
Li num livro francês que certo pregador foi convidado a fazer o elogio fúnebre de um senhor muito distinto e considerado, durante a Missa de corpo presente. Coletou às pressas alguns rápidos dados biográficos do falecido e se julgou em condições
de falar ao púlpito. Entretanto, aconteceu que, à medida que falava, se foi entusiasmando com o que dizia e foi ampliando insensivelmente o âmbito da pauta que fi xara. A certa altura, ocorreu-lhe louvar o morto como excelente esposo e pai de família. Ora, esse era precisamente o ponto fraco do falecido: toda a cidade conhecia suas aventuras extraconjugais... Muitos ouvintes se entreolharam, se puseram a sorrir e a cochichar comentários. Seguiram-se algumas risotas mal abafadas... Só então o fogoso orador se deu conta de que pisara em falso. Que fez ele? Fingiu que nada se passara e se pôs a discorrer sobre outro aspecto do falecido. E tudo prosseguiu com normalidade.
Saiu-se bem.
Pior foi o caso ocorrido com o Embaixador Manoel Pio Corrêa, conforme ele mesmo conta em suas interessantes memórias.
Quando jovem, ele participara de um curso nos Estados Unidos, proporcionado pelo Governo norte-americano a jovens diplomatas de vários países latino-americanos. Travou, durante o curso, amizade muito íntima com um colega oriundo de
uma nação da América espanhola.
Os dois tinham quase tudo em comum: a mesma idade, a mesma profissão, as mesmas ambições, os mesmos gostos. Ficaram, realmente grandes amigos. Mas, ao término do curso, separaram-se e depois de algum tempo perderam completamente o contato.
Trinta anos depois, já em fim de carreira, o brasileiro foi nomeado Embaixador junto a um governo “X”.
Ao assumir o novo posto, consultou, como de hábito, a lista do corpo diplomático acreditado no local, e teve a alegria de nela encontrar o nome do antigo amigo, agora embaixador do seu país.
Na mesma hora, telefonou-lhe e imediatamente, como num passe de mágica, se reconstituiu a velha amizade. Sentiram-se, desde o primeiro momento, com a mesma intimidade de trinta anos antes. Emocionados, os dois combinaram um encontro, que se realizou logo depois na residência do hispano-americano.
Grandes abraços, grande confraternização, recordação de fatos de há muito tempo sepultados na memória.
De repente, entre outras lembranças do tempo de rapazes, ocorreu ao brasileiro perguntar:
- Ainda te lembras de uma porto-riquenha dentuça e horrorosa que queria a todo custo casar contigo?
Antes que qualquer resposta fosse dada, abriu-se a porta do salão e entrou, sorridente e comprazida, a embaixatriz. Era precisamente a porto-riquenha dentuça e horrorosa...
Faço um desafio ao leitor: consegue imaginar uma saída para o diplomata brasileiro se safar dessa situação ainda mais horrorosa do que a pobre embaixatriz? Muitas vezes pensei nesse caso, nunca me ocorreu alguma saída. Se ao leitor ocorrer alguma, por favor me comunique e ficarei grato. Pode escrever para aasantos@uol.com.br.
Armando Alexandre dos Santos, é doutor na área Filosofia e Letras, membro do círculo Monárquico de Piracicaba
10 de julho de 2026
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