Especial_antigo

Documento OVALE: Tráfico paga até R$ 2 milhões por 'biqueiras' no Vale

Por Guilhermo Codazzi e Xandu Alves |
| Tempo de leitura: 11 min
Mapa do Campo dos Alemães
Mapa do Campo dos Alemães

Sob nova direção. O ponto mais valorizado e lucrativo do mercado criminoso e violento das drogas está sob novo comando. Como uma peça no tabuleiro do banco imobiliário, um bando chefiado por um ‘irmão’ -- nome dado para os integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital) -- movimentou-se de olho em cifras milionárias e comprou as ‘biqueiras’ (gíria para os pontos de venda de entorpecentes) no bairro Campo dos Alemães, na região sul de São José dos Campos, por cerca de de R$ 2 milhões.

A transação criminosa, identificada por agentes ligados à inteligência policial, envolveu pontos que eram comandados por Lúcio Monteiro Cavalcante -- líder do PCC morto no dia 6 de março de 2017 durante um tiroteio com a Polícia Militar no Anel Viário. De acordo com investigações do MP, o tráfico no Campo gerava R$ 2 milhões mensais.

O mercado da droga na área tinha uma divisão: ao lado de um sócio, o chefe do PCC comandava uma parte (perto da rua 15), e outra quadrilha, em ligação com o PCC, detinha outra área (perto da rua 24). Após a morte de Lúcio, de acordo com as fontes policiais, o sócio dele passou a ter o controle da biqueira -- pessoas ligadas ao traficante morto teriam aberto mão do ‘negócio’. Mas ela ficou parada. Com isso, de acordo com as fontes da inteligência policial, parte do movimento migrou para áreas próximas.

Agora, o sócio de Lúcio, do PCC, vendeu o seu território e recebeu o pagamento em dinheiro vivo, imóveis e veículos. O tráfico na área está sob nova direção.

PCC controla tráfico e cria Lei do Crime

A ascensão do PCC (Primeiro Comando da Capital) está diretamente ligada à gestão dura e operacional de suas lideranças. A ideia de organizar um grupo criminoso paulista ganhou força após o massacre do Carandiru, em outubro de 1992, no qual morreram 111 presos. Um ano depois, um pavilhão anexo da Casa de Custódia de Taubaté, batizado de ‘Piranhão’, tornou-se o ‘berço’ da facção. Ali o Estado abrigava os presos mais perigosos de São Paulo. Ao completar 25 anos, além de ser perseguido pelas forças de segurança, o PCC também virou ‘alvo’ de estudos acadêmicos, livros e documentários.

NEGÓCIOS.

Os estudos descrevem a ‘gestão’ da facção como violenta e rígida, mas também alicerçada nos negócios. O PCC é capaz de determinar quem vive e quem morre em seus tribunais do crime, mas tudo a partir de um viés comercial. O intuito é ganhar cada vez mais dinheiro e poder. O jornalista Bruno Paes Manso e a socióloga Camila Nunes Dias se uniram para escrever o livro “A Guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil” (Editora Todavia), lançado em agosto deste ano.

Camila também é autora de uma tese de doutorado sobre a facção criminosa. Segundo ela, o PCC adotou uma ética que era própria do crime dentro das penitenciárias, só que aplicada de forma fragmentária. “O PCC a tornou mais homogênea. Um dos princípios é de não matar. Só mata com aval do PCC”.

Ela e Manso defendem que esta disciplina hierárquica sobre a morte fez com que, colateralmente, o PCC colaborasse com a redução de homicídios no Estado de São Paulo, cujos indicadores estão em queda há 18 anos. “PCC é a agência reguladora do mercado de drogas. Eles sabem que não matando todos ganham mais dinheiro”, afirmou Manso.

Parece um raciocínio até simplista, mas funciona no mundo perverso do tráfico de drogas, comandado pelo PCC. Se antes um devedor de biqueira acabava morrendo, hoje ele paga sua dívida prestando serviço à facção, que emprega regras de ‘mercado’ para comercializar seus pontos de venda de drogas, como ocorreu no Campo dos Alemães, zona sul de São José dos Campos. Manso explica que o PCC trabalha numa dinâmica de “mediação dos endividados”, não aderindo à matança em primeiro lugar. “É uma reconfiguração na dinâmica criminal de São Paulo. Não se pode minimizar ou negar a existência do PCC”.

‘Não dá para crer na tese de que PCC reduziu homicídios’, afirma Silva Filho

José Vicente da Silva Filho, coronel da reserva da Polícia Militar e ex-secretário Nacional de Segurança Pública, discorda que o PCC tenha colaborado para reduzir os homicídios em São Paulo. Ele também acredita que a facção não seja tão organizada como se crê, com presos “exagerando” sobre históricas.

“Temos uma polícia em São Paulo que é modelo para o resto do país. O trabalho que vem sendo feito desde o final dos anos 1990, de mudança nos padrões de trabalho na PM, foi a causa principal da redução das mortes e dos crimes, além, da tecnologia”, afirmou Silva Filho. “É difícil acreditar que o PCC tenha controle sobre a criminalidade Fator decisivo para redução de crimes foi o mapeamento que polícia fez dos locais de maior incidência”.

‘PCC é empresa de crime organizado que rende muito’, diz ex-policial de São José

O preço de R$ 2 milhões pago por biqueiras no Campo dos Alemães, na região sul de São José dos Campos, é inferior ao valor obtido com a exploração do tráfico de drogas no principal bairro da região sul da cidade para o crime organizado.

Segundo um ex-policial que atuou na investigação de crimes na zona sul por mais de 10 anos e pediu para permanecer no anonimato, as biqueiras rendem mais do que R$ 2 milhões por mês. A informação foi obtida dos próprios traficantes, por meio de interceptações telefônicas e investigações. “PCC é empresa de crime organizado, Essas biqueiras [do Campo dos Alemães] tinham um faturamento superior a R$ 2 milhões. Valem muito mais. Ela são uma empresa que rende muito”, declarou.

Polícia faz cerco contra mercado das drogas

A apreensão de drogas tornou-se uma das principais ferramentas das forças de segurança para minar financeiramente as facções criminosas, principalmente o PCC (Primeiro Comando da Capital), que comanda o tráfico de drogas na região e no Estado de São Paulo.

De janeiro a agosto deste ano, segundo dados da SSP (Secretaria de Estado da Segurança Pública), foram apreendidas 5,3 toneladas de drogas na região do Vale do Paraíba, o que representou um aumento de 97,9% em relação às 2,7 toneladas tiradas de circulação no mesmo período do ano passado. A pasta confirma que o tráfico de drogas é “uma das principais fontes de receita do crime organizado”.

Em oito meses deste ano, ainda segundo a SSP, foram presas quase 7.000 pessoas envolvidas em crimes diversos na região. “A Dise (Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes) de São José dos Campos monitora criminosos e suas atividades com trabalhos de inteligência investigativa, sempre com objetivo de prender seus integrantes”, informou a SSP, por meio de nota.

INTELIGÊNCIA.

No Estado, 620 pessoas envolvidas em organizações criminosas foram presas em 2018. A SSP informou que, em paralelo às ações de policiamento, iniciativas da área de inteligência em parceria com o Ministério Público e com a SAP (Secretaria de Administração Penitenciária) permitiram que, apenas em junho, 65 pessoas fossem presas e mais de uma tonelada de drogas apreendidas durante a Operação Echelon.

Outra operação, batizada de Ethos e realizada no final de 2016, resultou na prisão de 53 advogados ligados a facções criminosas. “No Vale, o efetivo da PM conta com o reforço do Batalhão de Ações Especiais de Polícia Militar (3º BAEP), que atua no combate ao crime de maneira mais ostensiva na região, de forma semelhante aos padrões do policiamento de Choque”, completou a SSP.

Facções como o PCC, segundo a SSP, são combatidas com o uso de tecnologia, da gestão de informações e de ferramentas tecnológicas. Um dos instrumentos é o sistema Detecta, um ‘big data’ de informações criminais que integra os bancos de dados das polícias paulistas. Em cerca de quatro anos, o sistema auxiliou na prisão de 10,7 mil criminosos, recuperação de 6,6 mil veículos e na apreensão de 539 armas.

‘Monitoramos o crime’, diz polícia

Segundo Hugo Pereira de Castro, delegado titular da Dise (Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes) de São José dos Campos, o combate e o monitoramento ao crime organizado são trabalhos constantes da Polícia Civil, especialmente da Dise, que “atua com trabalhos de inteligência investigativa”. “Algumas informações não podem ser passadas porque podem atrapalhar o trabalho de inteligência dessa Delegacia Especializada, vez que revelariam métodos e táticas de investigação”, informou o delegado.

Quanto o combate ao tráfico, ele disse que “tanto a Polícia Civil, quanto a Polícia Militar, realizam dezenas de prisões relativas a esse delito em vários bairros da cidade de São José dos Campos, inclusive no bairro Campo dos Alemães”, informou o delegado.

Mapeamento das Biqueiras

O movimento perto das vielas, becos e esquinas é intenso. O ‘drive thru’ da droga em São José dos Campos opera 24 horas por dia, todos os dias da semana, com soldados do tráfico divididos por turnos, cada um deles com ‘vapores’, ‘olheiros’, ‘caixa’ e ‘gerente’. O valor das ‘lojas’ (ou ‘boca’ ou ‘biqueira’) varia segundo critérios como, por exemplo, localização geográfica e o movimento (é perto de um bar, escola, etc), chegando até às cifras milionárias envolvidas na transação ocorrida no Campo dos Alemães

O entorpecente, em geral, tem como fornecedores quadrilhas da zona leste de São Paulo e é produzido em países vizinhos, como Paraguai, Peru e Bolívia, entrando no Brasil pela fronteira do Paraná e Mato Grosso do Sul. A RMVale, localizada entre São Paulo e Rio de Janeiro, dois maiores mercados de drogas, é considerada um ‘corredor’ para o escoamento de entorpecentes e também de armas.

“O fornecedor depende muito do ‘network’ do ladrão, colocam até marca na droga como garantia de pureza. Isso no ‘atacado’, aqui [Vale] o forte é o ‘varejo’, as biqueiras”, afirmou a OVALE, na condição de não ter a sua identidade revelada, um agente ligado ao monitoramento do crime. Forças policiais mantêm, desde 2014, um mapeamento de áreas e bandos que atuam em São José.

O trabalho permitiu, por exemplo, identificar a venda de biqueiras no Campo. O comprador seria P., um criminoso ligado à facção criminosa PCC e que está foragido desde maio, quando teve uma saída temporária e não voltou ao sistema prisional. Ele havia sido preso em 2014, em Jacareí. “Está tentando levantar o ponto no Campo, buscando um ‘time’, a logística, fornecedor”, completou o agente de inteligência. O objetivo do mapeamento das biqueiras é reforçar o combate à venda de entorpecentes.

“Temos ‘CDD’ [Jardim São José 2, zona leste, que foi apelidado de Cidade de Deus, em uma referência ao filme homônimo], tem a zona norte, zona sul, Banhado, Santa Cruz, que ainda é ligada ao Serjão [Sérgio da Silva Santos, o traficante preso em 2001]. Aqui a gente tem um monte”, declarou o agente de inteligência.

ESTADO PARALELO.

Com o uso de uma espécie de rede de ‘franquias’, as ‘lojas’, o PCC lucra milhões de reais, segundo investigações do Ministério Público. Além de atuar no varejo, com a venda direta para o usuário de droga, o PCC também é fornecedor e controla o mercado, buscando monopolizar o tráfico de crack, cocaína e maconha nas ruas.

“É crucial lembrar que todas as lojas (...) recebem o entorpecente única e exclusivamente do PCC. Assim, é importante imaginar, a título de exemplo, que as lojas do PCC não passam de franquias que só vendem o produto fornecido pelo PCC”, diz trecho de acusação apresentada pelo MP em Suzano, em 2017.

Com abrangência internacional, o PCC mantém a mesma estrutura em todas as áreas de atuação, incluindo a ‘012’ -- referente ao Vale do Paraíba, região que é o berço da facção. Em seus territórios, o PCC tem a sua própria lei. O chamado tribunal do crime organizado foi mostrado no Documento OVALE de agosto. No jargão da organização criminosa, trata-se do ‘tabuleiro’ — nome para os tribunais, onde a definição sobre quem viverá ou morrerá é feita como o lançar de dados. Isso nas áreas do mapa sob o domínio do crime.

Número de ocorrências de tráfico cai mais de 40% na zona sul após morte de ‘chefão’

O número de ocorrências de tráfico de drogas registrado na área do 3º DP (Distrito Policial) de São José, que inclui o Campo dos Alemães, teve queda de 42,5% em 2018, comparado ao ano passado, de acordo com dados oficiais do governo estadual. Em 2017, de janeiro a setembro, foram 335 ocorrências de tráfico na área, contra 184 no mesmo período em 2018. Apesar da queda, essa continua sendo a área recordista em casos nas 39 cidades da RMVale.

Em abril, uma fonte ligada à inteligência policial já detectava esse movimento. “Campo já era, o tráfico migrou para os bairros ali ao lado [como Dom Pedro, Jardim Colonial, e outros]. Fortaleceu também a zona norte e leste, os usuários, muita gente, deixou de ir para o Campo”, disse o agente. Em São José, no total, o número de casos caiu de 738 para 492 (-33,3%). Tirando o 3º DP da conta, o índice caiu 23,5% (de 403 para 308 ocorrências).

Comentários

Comentários