INDÚSTRIA DE DEFESA

Joesley vai financiar a Avibras, que fará novos mísseis no Vale

Por Da redação | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 5 min
Marcelo Camargo/Agência Brasil
Empresário Joesley Batista
Empresário Joesley Batista

O empresário Joesley Batista, controlador da J&F, assinou contrato para participar do funding da Avibras Indústria Aeroespacial, empresa com sede em São José dos Campos e unidades no Vale do Paraíba. O funding é coordenado pelo Fundo Brasil Crédito, que arrecadou R$ 300 milhões com investidores privados. A informação é do jornal O Estado de S. Paulo.

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Além de ser o principal credor da empresa, em recuperação judicial desde 2022, o fundo foi o autor do plano alternativo de reestruturação da Avibras, já aprovado pela Justiça e por credores. A reportagem do Estadão apurou que a empresa deve fazer o anúncio final de sua reestruturação nas próximas semanas.

O Fundo Brasil Crédito tem dois cotistas: os investidores Raul Ortuzar e Thiago Osório. Especialistas em reestruturar empresas, eles detêm ações da Avibras, que podem ser negociadas ao término do processo — está para ser concluído o acerto com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional.

O dinheiro de Joesley e dos outros investidores resolve um dos maiores desafios enfrentados pelo Ministério da Defesa na gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O ministro José Múcio se empenhou em encontrar uma solução que garantisse a sobrevivência da Avibras, a maior indústria bélica do país, em um momento em que seus produtos ganharam nova importância em razão da realidade geopolítica criada pelo atual governo dos Estados Unidos.

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Plano de reestruturação

O plano de reestruturação financeira da empresa previa que, além dos R$ 300 milhões privados, outros R$ 300 milhões fossem obtidos com o setor público por meio de financiamento. O dinheiro viria da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) ou do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento). Mas a direção do Fundo Brasil Crédito decidiu ir adiante e retomar a produção já em maio deste ano, mesmo sem ter ainda os recursos públicos.

Josley se reuniu duas vezes com a direção do Fundo. Entre os outros financiadores há pelo menos um banco. Considerada uma empresa estratégica, a Avibras tinha defensores no Congresso que chegaram a pressionar o governo para que Lula encapasse a empresa em razão de ela ser estratégica para a defesa do País.

O dinheiro de Joesley resolve outro problema: as Forças Armadas não queriam que ela fosse adquirida por estrangeiros. Entre 2024 e 2025, a chinesa Norinco, a australiana DefendTex e a saudita Black Storm Military Industries haviam demonstrado interesse em comprá-la.

Mísseis para o Exército

Os principais contratos mantidos atualmente pela Avibras são com o Exército e com a Força Aérea Brasileira. A empresa é responsável pelo sistema de foguetes balísticos Astros, a joia da coroa da artilharia do Exército, um produto vendido para quase uma dezena de países, entre eles a Indonésia e a Malásia. E que segue despertando a atenção no exterior.

A reportagem apurou que a empresa deve, de imediato, dar continuidade à sua parceria com o Escritório de Projetos do Exército para dar continuidade ao desenvolvimento do Míssil Tático de Cruzeiro — 90% do projeto já foi concluído, faltando apenas a campanha de tiro.

A Força Terrestre também está desenvolvendo o Míssil Tático Balístico S+100, que deve aproveitar o conhecimento adquirido com o projeto S-80. O míssil deverá ter interoperabilidade com outros sistemas da Avibras. Trata-se de um projeto novo e considerado de grande potencial de vendas no mercado exterior.

As negociações estão sendo feitas pelo Comando de Logística e pelo Departamento de Ciência e Tecnologia, do Exército. O plano é usar os recursos para investimentos na Defesa garantidos pela Lei Complementar 221, que autorizou a exclusão de até R$ 30 bilhões em despesas com projetos estratégicos de defesa nacional do arcabouço fiscal até 2031. São essas encomendas que devem sustentar a empresa em sua retomada.

Retomada da produção

Atualmente, a Avibras conta com 80 profissionais e deve chegar a 200 em maio, quando a fábrica deve voltar a produzir. Em junho, a empresa espera ter uma equipe de 500 pessoas, podendo alcançar mais de 1 mil com novas encomendas e parcerias futuras com empresas nacionais e estrangeiras.

A empresa tem preservados a sua linha de produção, as propriedades intelectuais e seus ativos da área de tecnologia de informação. Já reativou seus setores de compras e seu RH.

A Avibras pediu recuperação judicial em março de 2022, com dívidas de R$ 394 milhões. A empresa alegou à Justiça que havia perdido competitividade no mercado em países do Oriente Médio e no Sudeste Asiático com a ascensão de empresas fortemente financiadas por governos estrangeiros.

Em agosto de 2024, o fundo comprou um crédito de R$ 93 milhões de uma empresa da Indonésia e se tornou o maior credor da Avibras. Sob argumento de que a indústria tinha péssima saúde financeira, propôs um plano de recuperação judicial alternativo e reestruturação da empresa.

O plano de recuperação proposto pelo fundo foi aprovado e avalizado pela Justiça paulista. Até um novo CNPJ foi criado para a Avibras, e capitalizado com R$ 2,5 bilhões da empresa em recuperação judicial, em dezembro de 2025.

Greve foi encerrada

Uma greve que durou 1.280 dias terminou em acordo com a empresa firmado na Justiça no último dia 26 de março. A dívida trabalhista de R$ 230 milhões com 1,4 mil antigos empregados será saldada em até quatro anos.

Foi neste contexto que Joesley Batista demonstrou interesse no financiamento da empresa e assinou um contrato com o Fundo Brasil Crédito, mediante o cumprimento de algumas condições exigidas para efetivar o negócio, como a negociação das dívidas trabalhistas. O antigo dono da empresa, João Brasil, que levou a empresa à bancarrota, ficará de fora da nova Avibras.

A empresa tem sede em São José dos Campos e instalações industriais no Vale do Paraíba, em Jacareí e Lorena.

* Com informações do jornal O Estado de S. Paulo

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