A análise do celular do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, 53 anos, revela que ele "enfiou a mão" (agrediu) na soldado PM Gisele Alves Santana, 32 anos, sua esposa, dias antes dela ter sido morta com um tiro na cabeça, efetuado com a arma do oficial.
A agressão teria ocorrido no dia 5 de fevereiro. A morte de Gisele aconteceu na manhã do dia 18 daquele mês, no apartamento em que o casal vivia, em São Paulo.
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O oficial, que é nascido em Taubaté, foi preso na manhã desta quarta-feira em um prédio no jardim Augusta, na região central de São José dos Campos. Neto foi indiciado por feminicídio, violência doméstica e fraude processual. Após a prisão, ele foi chamado de "assassino" por populares (veja vídeo).
"As mensagens extraídas do celular do investigado revelaram ofensas, humilhações, controle e ameaça de subjugação, inclusive episódio de agressão física (“enfiado a mão”) dias antes dos fatos aqui analisados (05/02/2026)", diz o Ministério Público.
Na decisão, assinada pelo juiz Fabrício Alonso Martinez Della Paschoa, o TJM aponta que Gisele sofria violência física, psicológica e patrimonial antes de morrer. Há indícios de que a relação do casal era marcada por conflitos e episódios recorrentes de violência doméstica.
Segundo o Tribunal, mensagens extraídas do celular do tenente-coronel revelaram ofensas, humilhações, controle e ameaça de subjugação contra a esposa, inclusive com episódio de agressão física no dia 5 de fevereiro, quando Neto teria “enfiado a mão” em Gisele, 13 dias antes de ela ser morta.
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'Situações constrangedoras'
Além disso, aponta o TJM, o militar criava situações constrangedoras no ambiente de trabalho da esposa, protagonizando “discussões no interior da seção”.
“Isso porque, restou evidenciado o contexto de violência doméstica e familiar que permeava o relacionamento já deteriorado, entre as partes, com episódios escalonados de agressões físicas, humilhações e controle psicológico, inclusive em ambiente de trabalho, com agravamento paulatino nas semanas que antecederam o fato. As testemunhas ouvidas, colegas de trabalho da vítima, descreveram – e aclararam - o cenário do relacionamento conturbado dos envolvidos”, diz trecho da decisão do Tribunal Militar.
“Em uníssono, descreveram o investigado como ciumento, controlador e invasivo, comparecendo sem atribuição (utilizando-se de sua ascendência hierárquica) ao local de trabalho da Sd PM Gisele e monitorando sua rotina”, diz outro trecho.
Segundo as testemunhas, o tenente-coronel se utilizava da condição de superior hierárquico para “adentrar as seções e ali permanecer por longo período de tempo, observando as atividades da vítima, o que gerava desconforto aos integrantes da equipe”.
Na avaliação do Tribunal, esse contexto foi fundamental para a compreensão do crime praticado e para a avaliação do risco atual, caso “o investigado permaneça em liberdade”.
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Perícia científica
Um dos pontos mais importantes da decisão faz referência ao laudo da perícia científica, que apontou que o tiro que matou Gisele é incompatível com a alegação de que a soldado se suicidou.
A perícia indica que o tiro ocorreu pelas costas, possivelmente de maneira súbita, o que teria impossibilitado qualquer reação da vítima.
"O mosaico probatório, portanto, afasta a hipótese de suicídio e indica que Gisele foi abordada por trás, com mão esquerda do agressor na mandíbula/face e arma na mão direita dirigida à têmpora direita; após o disparo, o corpo foi deposto ao chão, houve escoamento sanguíneo e manipulações subsequentes (inclusive posição da arma na mão), com limpeza/banho do autor, sendo o investigado a única pessoa com ela antes do fato e o primeiro a intervir na cena, o que robustece a autoria em seu desfavor", diz trecho da decisão do TJM.
Os laudos também apontam que houve movimentação do corpo após o disparo, além de indícios de alteração na cena do crime — o que reforça a suspeita de tentativa de simular suicídio.
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Prisão preventiva
A Justiça Militar considerou que há indícios suficientes de feminicídio e fraude processual. A decisão também destacou a gravidade do caso, o risco de interferência nas investigações e o possível uso da posição hierárquica do oficial para influenciar testemunhas.
O magistrado ainda ressaltou que o crime pode ter ocorrido após um histórico de violência doméstica, incluindo agressões físicas, psicológicas e controle sobre a vítima, inclusive no ambiente de trabalho.
Outro ponto destacado na decisão é o intervalo entre o horário estimado do disparo, por volta das 7h28, e o acionamento do socorro. Para a investigação, esse intervalo pode indicar tentativa de alterar a cena antes da chegada das equipes.
A Justiça também autorizou a apreensão de celulares e a quebra de sigilo de dados eletrônicos do investigado, que podem ajudar a esclarecer a dinâmica do crime. O caso segue sob investigação e tramita sob segredo de Justiça.
O tenente-coronel foi encaminhado ao 8º Distrito Policial, na capital, onde será interrogado. Após os procedimentos, ficará à disposição da Justiça no Presídio Militar Romão Gomes. O IPM (Inquérito Policial Militar) será concluído nos próximos dias, informou a SSP (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo).