COLUNISTA

Clareamento dentário interno: ainda se faz?

Por Alberto Consolaro | Professor Titular da USP e Colunista de Ciências do JC
| Tempo de leitura: 3 min
O peróxido de hidrogênio do clareador permeia os túbulos cervicais e sai na gengiva pela junção amelocementária
O peróxido de hidrogênio do clareador permeia os túbulos cervicais e sai na gengiva pela junção amelocementária

O clareamento dentário tem como princípio ativo o peróxido de hidrogênio, também chamado de peróxido de carbamida, peróxido de ureia, perborato e água oxigenada. É comercializado sob várias formas e produtos, incluindo-se enxaguantes, fitas adesivas e até chupetas. Todo agente clareador tem como elemento químico o peróxido de hidrogênio e qualquer produto que promete clarear os dentes sem esta base, deve ser colocado em dúvida.
Esmalte dentário não tem cor e nem é transparente, ele é transluzente, deixando passar a cor mais ou menos amarelada da dentina, afinal dentes brancos são artificiais nos humanos. Nas últimas décadas do século passado, o uso de clareadores era por dentro do dente, internamente, e se restringia aos dentes com tratamento endodôntico ou do canal. Décadas depois, surgiram as técnicas de clareamento para dentes vitalizados.

AS RAZÕES

As técnicas de clareamento interno bem executadas, tinham muito bons resultados para a finalidade que foram idealizadas. No entanto, surgiram senões, como a redução da resistência do dente às fraturas e o fato de 10% dos dentes clareados internamente, apresentarem-se, depois de certo tempo, com Reabsorção Cervical Externa.

O peróxido de hidrogênio tem uma permeabilidade muito grande até nas interfaces de restaurações e obturações. Ao se colocar o peróxido de hidrogênio no interior da coroa e da parte cervical do dente, deixando-o ali por um tempo, sua tendência é adentrar nos túbulos dentinários que temos aos milhões por cada milímetro quadrado. Mesmo que se protegesse com algum material, as aberturas dos túbulos na região cervical do canal, o peróxido entrava quase que livremente.
Boa parte destes túbulos dentinários que o peróxido de hidrogênio acessa internamente, irão se abrir na parte cervical externa do dente e ainda recoberta pela gengiva. Nesta parte cervical, o esmalte é recoberto ou fica em contato direto com o cemento da raiz, mas ao longo da circunferência dentária ficam minúsculas janelas de dentina sem recobrimento. Ali se abrem uma quantidade razoável de túbulos onde o peroxido permeia-se para a superfície externa.

A saída de peróxido de hidrogênio nestas janelas de dentina, inflama o tecido gengival e deixa-as expostas às células que reconhecem uma estranheza por ter proteínas estranhas/antigênicas para o organismo e passam a reabsorvê-la iniciando a Reabsorção Cervical Externa.

Nesta reabsorção assintomática e subgengival, sem sintomas e sinais, corre-se o risco de avançar e ficar de tal tamanho que prejudique a estética e resistência, mesmo depois de tratada adequadamente. Se for diagnosticada precocemente, será pequena ou media, e facilmente restaurável quanto a estética e função. A cada ano, aconselhava-se uma radiografia periapical para o controle da normalidade.

O surgimento das técnicas clareadoras externas em dentes vitalizados, acabou revelando que também funcionava em dentes com tratamento endodôntico. Criaram-se técnicas e materiais mais específicos para o clareamento externo de dentes tratados endodonticamente e as técnicas internas foram sendo abandonadas gradativamente. Colaborou com isto, a evolução das técnicas de recobrimento dos dentes por lentes de contato e coroas tipo jaquetas.

REFLEXÃO FINAL

Isto ocorreu para fugir dos efeitos indesejáveis do clareamento interno, especialmente a Reabsorção Cervical Externa que, atualmente, ocorre em dentes com traumatismos dentários e ou manipulação cirúrgica indevida da junção amelocementária.

Os criadores e seguidores da técnica de clareamento interno, há muito tempo atrás, nas discussões dos casos clínicos, questionavam se realmente era o clareador interno que provocava a Reabsorção Cervical Externa ou teria estes dentes clareados sido submetidos a traumatismo dentários superpostos como a tão frequente concussão? Eis a questão!

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