A posse dos desembargadores que assumem a cúpula do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) transcende o rito administrativo. A divulgação das linhas da gestão, com a definição de prioridades e escolhas estratégicas, expõe não apenas um plano de atuação, mas a forma como o Judiciário pretende se apresentar e se relacionar com a sociedade nos próximos anos, assumindo um desafio de elevada complexidade institucional.
Entre os eixos anunciados da nova gestão, o uso intensivo da inteligência artificial desponta como símbolo de modernização, eficiência e resposta a um sistema que opera sob números verdadeiramente alarmantes. São mais de 17 milhões de processos em andamento apenas no TJSP. Milhões de novas ações ingressam anualmente em um Judiciário que se tornou, por força das circunstâncias, um dos principais espaços de resolução de conflitos sociais, econômicos e políticos do país.
Esses dados não revelam apenas um problema de gestão. Revelam um traço estrutural da sociedade brasileira, a litigiosidade como resposta quase automática a impasses que muitas vezes deveriam ser resolvidos fora do processo judicial.
Nesse cenário, a adoção de tecnologias baseadas em inteligência artificial é não apenas compreensível, mas necessária. Automatizar tarefas repetitivas, organizar dados, racionalizar fluxos e melhorar a gestão do acervo são avanços legítimos. O risco não está na tecnologia, mas na ilusão de que ela, por si só, seja capaz de resolver problemas que são, antes de tudo, institucionais e humanos.
A inteligência artificial não pode transformar o Judiciário em uma instância distante, opaca ou excessivamente padronizada. Justiça não se mede apenas por produtividade. Justiça exige decisão fundamentada, compreensão do caso concreto, escuta das partes e respeito às garantias processuais. Quando a tecnologia passa a funcionar como uma camada que afasta o jurisdicionado do juiz, compromete-se o elemento mais sensível da jurisdição: a confiança.
Esse debate não diz respeito apenas à magistratura. Ele envolve todos os atores do sistema de Justiça. Advogados, defensores públicos, promotores e procuradores de justiça exercem funções constitucionais essenciais. A tecnologia não pode reduzir o contraditório, esvaziar a defesa técnica, limitar o acesso à Justiça ou transformar o processo em um fluxo automatizado de decisões. Um Judiciário democrático depende da atuação crítica, qualificada e humana de todos esses atores.
A advocacia, em especial, não é acessória. É pilar da Justiça. Qualquer inovação que a afaste do centro do debate processual fragiliza o equilíbrio institucional. O mesmo se aplica à Defensoria Pública, cuja missão é garantir acesso real à Justiça, especialmente aos mais vulneráveis, e ao Ministério Público, responsável pela defesa da ordem jurídica e do interesse público. A inteligência artificial deve servir a esses atores, jamais condicioná-los.
O cenário se torna ainda mais delicado quando se soma a ele o papel da imprensa. Em uma democracia saudável, a imprensa não é espectadora, é instituição fundamental de controle social. Seu compromisso deve ser exclusivo com a verdade, com a contextualização responsável e com a informação precisa.
Jornalismo sério não simplifica o que é complexo, não distorce dados institucionais e não transforma decisões judiciais em manchetes sensacionalistas.
Infelizmente, parte significante dos veículos de comunicação se afastam desse papel. A deturpação de informações, a leitura enviesada de decisões e dos fenômenos sociais, a construção de narrativas descoladas dos fatos não informam, confundem.
Quando isso ocorre em temas sensíveis como Judiciário, inteligência artificial e democracia, o dano é ainda mais profundo. Alimenta desconfiança institucional, enfraquece a credibilidade das instituições e amplia a desinformação em larga escala.
Esse risco se intensifica em um ambiente digital marcado pela velocidade da informação e pelo uso crescente de tecnologias capazes de amplificar conteúdos falsos ou imprecisos. Às vésperas de novos ciclos eleitorais, a responsabilidade da imprensa se torna ainda maior. Liberdade de imprensa não se confunde com liberdade para desinformar. Ela pressupõe rigor, ética e compromisso inquebrantável com o interesse público.
A nova gestão do Tribunal de Justiça de São Paulo tem diante de si uma oportunidade histórica: modernizar sem desumanizar. Inovar sem afastar. Julgar com eficiência, mas sem romper o diálogo, o contraditório e a legitimidade democrática. A tecnologia deve ser meio, nunca fim. E a informação que circula sobre ela precisa ser clara, verdadeira e responsável.
Em tempos de transformação acelerada, o verdadeiro desafio institucional não está apenas em adotar inteligência artificial, mas em preservar aquilo que sustenta a democracia, um Judiciário acessível, atores jurídicos atuantes e uma imprensa comprometida, acima de tudo, com a verdade, com a manutenção e o fortalecimento da democracia.