CASO MILLY

MP vai ouvir Milly e curadoras sobre denúncia de censura na Flim

Por Da redação | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 3 min
Divulgação/EBC (Empresa Brasil de Comunicação)

O Ministério Público do Estado de São Paulo vai ouvir, nos próximos dias, a jornalista e escritora Milly Lacombe e as ex-curadoras da Flim (Festa Litero Musical) no âmbito de um inquérito civil que apura possível censura na edição de 2025 do evento, realizado em São José dos Campos.

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As oitivas fazem parte da investigação que busca esclarecer a exclusão de Milly da programação da Flim, além de eventuais violações à liberdade de expressão e ao direito de acesso à cultura, garantidos pela Constituição Federal.

Segundo o MP, os depoimentos foram agendados para aprofundar a apuração diante de contradições entre as versões apresentadas pela Prefeitura, pela organização do evento e pelos registros públicos sobre o caso.

Datas dos depoimentos

De acordo com a Promotoria, as curadoras Alice Penna e Costa, Tania Rivitti e Bianca Mantovani serão ouvidas no dia 23 de janeiro, às 14h30. Já o depoimento de Milly Lacombe está marcado para o dia 30 de janeiro, às 15h.

A investigação foi formalizada por meio de portaria assinada pelo promotor de Justiça João Marcos Costa de Paiva, da Promotoria de São José dos Campos, após o recebimento de diversas notícias que apontam possível interferência política no evento.

Além das oitivas, a Afac (Associação para o Fomento da Arte e da Cultura), organizadora da Flim, foi oficiada para apresentar documentos e informações no prazo de 15 dias. O prefeito Anderson Farias (PSD) e o vereador Zé Luís (PSD) também foram oficialmente notificados sobre a instauração do inquérito civil.

Vídeo e decisão que retirou Milly da Flim

O inquérito cita um vídeo publicado nas redes sociais pelo vereador Zé Luís (PSD), em 16 de setembro de 2025, no qual ele aparece ao lado do prefeito Anderson Farias (PSD). Na gravação, o prefeito afirma ter telefonado ao gestor da Afac (Associação para o Fomento da Arte e da Cultura), organizadora da Flim, e que, após a conversa, ficou decidido que Milly não participaria do evento.

Segundo Anderson Farias, o motivo teria sido uma fala de Milly em um podcast, classificada por ele como um “ataque à família”. No trecho citado, a jornalista afirma: “Família é um núcleo produtor de neurose. Essa família tradicional, branca, conservadora, brasileira. Gente, isso é um horror. É a base do fascismo.”

O prefeito negou ter ocorrido censura e declarou ainda que espaços públicos não devem ser utilizados como “palanque político-ideológico”. Milly rebateu, afirmando que sua fala foi retirada de contexto, que passou a sofrer ataques virtuais e que foi vítima de censura.

Crise e debandada de autores

A exclusão de Milly, revelada por OVALE, desencadeou uma crise sem precedentes na mais tradicional feira literária de São José dos Campos. Após o episódio, ao menos 16 dos 20 autores convidados desistiram de participar do evento, em protesto contra o que classificaram como censura e interferência política.

Entre os nomes que cancelaram presença estão Xico Sá, Cuti (Luiz Silva), Helena Silvestre, Maria Carolina Casati, Christian Dunker, Micheliny Verunschk e a atriz e cantora Marisa Orth.

As curadoras Alice Penna e Costa, Tania Rivitti e Bianca Mantovani, além da assistente de curadoria Bruna Fernanda, também deixaram a Flim de forma coletiva, classificando a retirada de Milly como ato de censura.

Diante da debandada, a Flim foi adiada de setembro para novembro de 2025 e acabou realizada com perfil mais restrito e queda expressiva de público, sem a presença da jornalista.

Versões divergentes

Em resposta ao Ministério Público, a Prefeitura de São José dos Campos afirmou que não houve veto formal à participação de Milly e que a jornalista teria desistido do evento por iniciativa própria, após críticas de vereadores nas redes sociais.

Já a Afac, por meio de seu representante Aldo Zonzini Filho, declarou ao MP que a decisão sobre a não participação de Milly teria sido tomada de forma “conjunta e consensual” com a assessoria da jornalista -- versão que diverge da apresentada pelo Executivo municipal.

Para o MP, a retirada de Milly e a saída em protesto de outros convidados causaram prejuízo cultural à população, com a descaracterização da curadoria original da feira.

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