POLARIZAÇÃO

Em meio à cruzada religiosa na eleição, RMVale entra no centro do alvo de radicais

Por Xandu Alves | Aparecida
| Tempo de leitura: 5 min
Caique Toledo / OVALE
Sala das Velas no Santuário Nacional de Aparecida, onde os fiéis vão para agradecer ou pedir bênçãos
Sala das Velas no Santuário Nacional de Aparecida, onde os fiéis vão para agradecer ou pedir bênçãos

A cruzada religiosa que se transformou a disputa presidencial deste ano colocou o Vale do Paraíba no centro do alvo de radicais apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PL).

Capital católica e da ciência no país, lideranças da RMVale assumiram um front de defesa da democracia, contra o autoritarismo e o obscurantismo e, por isso, enfureceram negacionistas.

Além do Santuário Nacional de Aparecida, que vem sofrendo ataques desde o primeiro ano de governo Bolsonaro, padres da região também se tornaram alvos de extremistas.

Na última sexta-feira (14), uma das vozes mais conhecidas da Igreja Católica anunciou afastamento das redes sociais por causa de ataques de bolsonaristas.

Aos 81 anos, Padre Zezinho, que vive em Taubaté desde os 2 anos de idade, anunciou que só voltará às redes depois do segundo turno das eleições. Isso por conta de ataques de apoiadores de Bolsonaro.

Segundo Padre Zezinho, tanto ele quanto o papa Francisco e a própria Igreja Católica estão sendo alvos de bolsonaristas, muitos deles católicos.

O sacerdote afirmou que quem busca o diálogo é visto por grupos radicais como “inútil, comunista ou ultrapassado”. De acordo com ele, essas pessoas “só conhecem as passagens políticas que ajudem o seu partido. Padre bom é o que vota como eles”.

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SINOS

O desabafo de Padre Zezinho ocorreu dois dias após o Santuário Nacional de Aparecida e sacerdotes da Basílica entrarem na mira de bolsonaristas.

Um deles foi o porta-voz do Santuário de Aparecida, padre Camilo Júnior, que criticou o tom eleitoreiro que o feriado de Nossa Senhora tomou com a presença de Bolsonaro.

“Hoje não é dia de pedir voto, é dia de pedir benção”, disse o sacerdote em celebração na Basílica Velha, sendo aplaudido pelos fiéis.

Instantes antes, mulheres apoiadoras de Bolsonaro entraram na sacristia da igreja histórica ameaçando parar o ressoar dos sinos do templo, que tocavam em razão da consagração solene a Nossa Senhora Aparecida.

Elas diziam que os sinos atrapalhavam uma oração do rosário convocada pelo Centro Dom Bosco, entidade do Rio de Janeiro formada por leigos católicos ultraconservadores, que havia convocado o evento para o mesmo horário da consagração e em frente à Basílica Velha. O evento teria a participação de Bolsonaro, que desistiu de última hora.

Camilo precisou explicar para as bolsonaristas que o dia era dedicado a Nossa Senhora Aparecida, cuja festa é tradição na cidade há décadas e que o rosário não se tratava de uma ação prevista na programação da festa. O evento não contava com apoio do Santuário Nacional e nem anuência da Arquidiocese de Aparecida.

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SERMÃO

Na manhã daquele dia 12 de outubro, foi a vez do arcebispo de Aparecida, dom Orlando Brandes, entrar mais uma vez na mira de bolsonaristas.

Após um sermão calcado no Evangelho, ele virou alvo de ataques nas redes sociais por ter dito que devemos “vencer o dragão do ódio, da mentira, do desemprego, da fome e da incredulidade”. Foi o que bastou para ser chamado de comunista.

O mesmo ocorreu com padre Eduardo Catalfo, reitor do Santuário Nacional, que fez uma reflexão semelhante na missa das 14h, com a presença de Bolsonaro na Basílica. Ele também ganhou seus próprios ‘haters’ na internet.

“A Igreja Católica, apesar de ser uma, é plural. Há bispos de ‘todas as cores’. Isso não é novidade. Apesar dessa paleta de cores ideológica interna da Igreja, ela sempre buscou uma fala consensual”, explica Edin Sued Abumanssur, doutor em Ciências Sociais, professor e coordenador do Programa de Estudos Pós Graduados em Ciência da Religião da PUC-SP.

“Quando dom Orlando fala essas coisas, numa situação polarizada como estamos vivendo, tem um aspecto de sabedoria e de dizer para as alas mais radicais, em todos os lados, que não é bem assim. A Igreja é um ‘grilo falante’ que está olhando. Eu gosto da postura de dom Orlando.”

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SEPARAÇÃO

Reitor do Santuário Nacional na festa da Padroeira do Brasil de 2018, às vésperas do segundo turno da eleição que elegeu Bolsonaro, o então reitor da Basílica, padre João Batista de Almeida, criticou a divisão causada pela política já naquela época.

Ele lembrou o momento político que “separa casais, famílias, partidos” e disse que Aparecida é a “esperança da unidade”, diante de um país dividido e violento. Com fé na Padroeira do Brasil, segundo ele, é “sempre possível construir a unidade”.

Em maio daquele ano, padre João Batista foi duramente atacado nas redes sociais por uma fala que nem dele foi, durante missa no Santuário.

Com participação de romaria do PT, a missa na Basílica teve uma leitura feita por um leigo que disse: “Que se faça a verdadeira justiça, e que ele possa estar entre nós”.

Pronto. Na internet, padre João Batista foi acusado de pedir a soltura de Lula, que estava preso em Curitiba na ocasião, condenado no âmbito da Operação Lava Jato -- condenações que foram anuladas.

Para reduzir a temperatura, o sacerdote se desculpou pelo mal-entendido. “Existe uma situação de intolerância muito grande entre os vários grupos políticos, religiosos, e essa intolerância está chegando a quase ódio. E achamos por bem pedir perdão pelo constrangimento, pela dor que causamos", disse ele a OVALE na época.

Relembre: 'Se fosse por convicção política, não faria', diz reitor do Santuário após pedido de desculpa em 'caso Lula'

Quatro anos depois, o ódio e a intolerância só aumentaram.

Como diz trecho do samba “Festa do Círio de Nazaré”, de 1975: “Óh! Virgem Santa, olhai por nós / Pois precisamos de paz”.

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