Quem entra na Igreja Nossa Senhora da Boa Morte e Assunção, em Piracicaba, encontra mais do que um templo religioso centenário. Dentro de uma das paredes do prédio está sepultado um dos personagens que ajudaram a dar origem à própria história do local: Miguel Arcanjo Benício Dutra, o Miguelzinho Dutra.
Artista, arquiteto, pintor, escultor e entalhador, Miguelzinho Dutra foi responsável por idealizar a primeira capela construída no espaço onde hoje está a igreja. Mais de um século depois de sua morte, os restos mortais do artista permanecem no interior do templo, identificados por uma placa instalada na parede dos fundos.
A história ganha ainda mais significado porque a igreja atual completou 100 anos em agosto de 2026. Embora o prédio que existe hoje tenha sido concluído em 1926, a trajetória religiosa do local começou muito antes, ainda no século XIX, com a atuação de Miguelzinho Dutra.
O artista que ajudou a construir a primeira igreja
Natural de Itu, Miguelzinho Dutra viveu parte de sua trajetória em Piracicaba e deixou marcas importantes na cultura e na arquitetura da cidade. Em 1844, ele tomou a iniciativa de construir uma capela dedicada a Nossa Senhora da Boa Morte.
Anos depois, em 24 de fevereiro de 1851, criou a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte. A partir daí, a construção do primeiro templo ganhou força. As obras começaram em 5 de abril de 1853 e foram concluídas em 26 de junho de 1855.

A antiga igreja foi abençoada em setembro daquele ano, quando a imagem de Nossa Senhora da Boa Morte foi transferida da antiga Igreja Matriz, atual Catedral de Santo Antônio, para o novo templo.
Miguelzinho não foi apenas o idealizador da obra. Seus conhecimentos artísticos e técnicos também foram empregados diretamente na construção e ornamentação do espaço.
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Viagem ao Rio levou Miguelzinho até Dom Pedro II
A dedicação do artista à igreja chegou até a Corte do Império. Em 1864, Miguelzinho Dutra viajou ao Rio de Janeiro em busca de apoio para a continuidade das obras.
Durante a viagem, levou consigo cartas de autoridades e moradores da região e também uma peça artística produzida por ele. No Rio, foi recebido pelo imperador Dom Pedro II, a quem entregou um oratório com uma imagem religiosa feita em jaspe.
O encontro teve um resultado importante para o projeto. Segundo os registros do próprio Miguelzinho, o imperador contribuiu com 100 mil-réis para auxiliar a construção da Igreja da Boa Morte.
O episódio mostra a dimensão que a iniciativa havia alcançado poucos anos após a construção da primeira capela.
Um incêndio mudou completamente a história
A primeira igreja, entretanto, não é o prédio que os visitantes conhecem atualmente.
Na noite de 25 de janeiro de 1891, um incêndio atingiu o complexo onde funcionava o Colégio Nossa Senhora da Assunção, destruindo o prédio e provocando danos também na igreja.
A reconstrução foi conduzida pelas Irmãs de São José de Chambéry, responsáveis pela administração do colégio. Para o projeto, foi contratado o arquiteto italiano Alberto Borelli.
As obras começaram ainda em 1891 e se estenderam por 35 anos, até a conclusão do atual templo em 15 de agosto de 1926.
Cúpula lembra uma das obras mais famosas da Itália
O novo prédio ganhou características arquitetônicas diferentes da construção original. A igreja passou a apresentar um estilo eclético, com predominância neorrenascentista e elementos associados ao Renascimento e ao Barroco.
Um dos principais destaques é a cúpula, cuja inspiração remete à Santa Maria del Fiore, em Florença, famosa catedral italiana e um dos grandes símbolos do Renascimento.
A fachada também reúne elementos característicos da arquitetura renascentista italiana, como colunas, nichos, janelas com arcos plenos, óculos e molduras.
Durante a construção da cúpula, outro episódio marcante ocorreu: o italiano Romanini, sócio de Paulo Pecorari na obra, morreu depois de cair de um andaime.
Por que Miguelzinho Dutra está enterrado dentro da igreja?

Entre todas as histórias preservadas pelo templo, o sepultamento de Miguelzinho Dutra é uma das mais curiosas.
Os restos mortais do artista foram colocados dentro da parede dos fundos da igreja. O sepultamento não fica exposto, mas uma placa identifica o local e registra a ligação de Miguelzinho com a história do templo.
A prática de sepultamentos em espaços religiosos era comum em determinados períodos, especialmente quando havia uma relação estreita entre a pessoa homenageada e a instituição religiosa.
No caso de Miguelzinho, a proximidade é ainda mais evidente: ele foi responsável pela criação da primeira capela instalada naquele espaço e participou diretamente de sua construção.
Assim, o artista que ajudou a erguer o primeiro templo acabou permanecendo fisicamente ligado à igreja mesmo depois de sua morte.
Das Irmãs de São José aos Salesianos
A história do complexo também está relacionada à educação. Durante décadas, as Irmãs de São José de Chambéry tiveram participação fundamental na administração do Colégio Assunção e na reconstrução do conjunto após o incêndio.
No fim de 1988, as religiosas encerraram sua comunidade em Piracicaba e o complexo passou aos cuidados dos Salesianos de Dom Bosco, que permanecem responsáveis pela administração até hoje.
A igreja mantém sua função religiosa e continua recebendo celebrações. As missas dominicais são realizadas às 10h.
Sinos continuam marcando o cotidiano de Piracicaba
Outra tradição preservada pelo templo está nos sinos. Eles foram restaurados e automatizados pelo Colégio Dom Bosco durante as comemorações dos 75 anos da presença salesiana em Piracicaba.
Desde então, os sinos são acionados diariamente ao meio-dia e às 18h. Aos domingos, também tocam antes da celebração religiosa.
O som dos sinos se tornou, assim, mais um elemento que conecta a construção centenária ao cotidiano da cidade.
Patrimônio histórico e cultural

A Igreja Nossa Senhora da Boa Morte e Assunção foi tombada como patrimônio histórico e cultural de Piracicaba em 29 de janeiro de 2004. O imóvel recebeu nível de proteção P1 do Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Piracicaba (Condepac), classificação destinada aos bens com maior grau de preservação.
O centenário do atual edifício, portanto, representa apenas uma parte da história. O espaço carrega uma trajetória iniciada em 1844, atravessada por incêndio, reconstrução, mudanças na administração e pela presença de personagens que ajudaram a formar a identidade cultural e religiosa da cidade.
Entre todos eles, Miguelzinho Dutra ocupa um lugar particularmente simbólico. O artista que idealizou a primeira capela e colocou seu trabalho a serviço da construção do templo permanece sepultado em suas próprias paredes, fazendo da igreja não apenas um patrimônio arquitetônico, mas também um lugar de memória de um dos artistas mais importantes da história de Piracicaba.