Um procedimento veterinário com uso de pele de tilápia foi realizado pela primeira vez no Brasil em um grande felino. A técnica foi aplicada pelo veterinário de Piracicaba Dr. Giuliano do Amaral Setem na tigresa Kalandugui, de 160 quilos, que vive na Fundação Kirongozi, em Garça, no interior de São Paulo.
Kalandugui apresentava lesões crônicas e ulceradas nas orelhas. Segundo o veterinário, o problema estava relacionado ao comportamento do animal, que é dócil e costumava se aproximar das grades do recinto e esfregar a cabeça no alambrado. O contato frequente provocava ferimentos que não cicatrizavam e que se agravavam principalmente durante os períodos mais quentes do ano.
Saiba mais:
- Mercado Municipal de Piracicaba ganha novos avanços na obra
- Campanha busca ampliar representação de Piracicaba em Brasília
Uso da pele de tilápia
Para tratar as lesões, a equipe veterinária utilizou um implante de pele de tilápia-do-Nilo. A técnica foi inicialmente desenvolvida para o tratamento de queimaduras e feridas em humanos e, posteriormente, passou a ser utilizada também na medicina veterinária.

De acordo com Giuliano, o material foi escolhido devido às características da região lesionada. A cartilagem das orelhas da tigresa apresentava pouca mobilidade, o que dificultava a realização de uma sutura convencional.
“A pele de tilápia foi desenvolvida para humanos, por uma universidade do Ceará, realmente para queimaduras, lesões grandes que não podiam ser coaptadas e pós-cirúrgicos. Depois, o pessoal começou a adaptar isso para animais domésticos, cães, gatos, e nós conseguimos implementar isso no manejo dela”, explicou.

O veterinário afirmou que, apesar de Kalandugui apresentar comportamento dócil, a aproximação para o tratamento das orelhas era difícil.
“Mesmo sendo um animal dócil, ela é muito assustada. A gente não consegue chegar perto da orelha dela tão facilmente. Preferimos anestesiá-la para já fazer o check-up e cuidar dessas lesões”, relatou.
Regeneração em até 13 dias
Após o implante, a pele de tilápia permanece aderida à região lesionada durante o processo de cicatrização. Conforme a nova camada de pele se forma, o material utilizado se desprende naturalmente.
No caso de Kalandugui, esse processo ocorreu entre 10 e 13 dias após o procedimento. Segundo Giuliano, quando o material se desprendeu, a região já apresentava regeneração da pele e crescimento de pelos.
“Após a camada mais inferior da pele já estar cicatrizada, a pele se desprendeu. Isso aconteceu em torno de 10 a 13 dias após o procedimento. A pele já estava completamente regenerada, já com crescimento de pelos. Hoje ela está com a orelha recuperada, com algumas falhas”, afirmou.

Técnica pode ser utilizada em outras regiões do corpo
Segundo o veterinário, o implante de pele de tilápia pode ser utilizado em diferentes regiões do corpo dos animais, mas a indicação depende das características de cada área.
A avaliação considera, entre outros fatores, a mobilidade da pele e a tensão exercida sobre o local da lesão. Regiões com maior movimentação podem apresentar dificuldades para determinados tipos de recobrimento de pele.
Giuliano explica que a resistência do material também permite sua utilização em áreas submetidas a maior tensão, como articulações.
“Como a pele de tilápia tem uma resistência maior, ela pode ser aplicada também em áreas de articulação, em regiões que têm uma tensão mais rigorosa, como cotovelo e joelho”, explicou.
Aplicação em grandes felinos
O procedimento realizado em Kalandugui amplia o uso da técnica de pele de tilápia para o tratamento de feridas em animais de maior porte. O material funciona como uma barreira protetora durante o processo de cicatrização e pode ser utilizado em situações nas quais a sutura convencional apresenta limitações.
Para Giuliano, o caso demonstra a possibilidade de utilização da biotecnologia em diferentes espécies animais e em regiões do corpo onde o fechamento tradicional da ferida pode ser dificultado pela anatomia ou pela movimentação da pele.
Ver essa foto no Instagram